Meritocracia e "condições de partida"

Publicado na coluna do jornal Gazeta do Sul, História & Cotidiano, dia 12 de julho de 2014

É interessante observar como o discurso meritocrático se constitui como uma zona de conforto das consciências frente às injustiças e às desigualdades sociais. Como um distanciamento que permite tanto ignorar um contexto maior onde vivemos como justificar para nós mesmos que somos a prova de que nossas vantagens sociais são resultado de nosso próprio esforço, e nada mais. É fácil ignorar as condições de partida para a competitividade quando estamos privilegiadamente à frente. “Condições de partida” é a igualdade material, substantiva, que igualaria a todos, possibilitando critérios comparativos para mensurar o mérito individual. De qualquer maneira, uma quimera que ignora os processos sociais/pessoais implicados na competitividade. E para aqueles que são indiferentes a essas questões, um pouco de pesquisa pode ajudar a ver as coisas de um modo menos individualista e até indiferente.
A ciência tem insistido em mostrar claramente o quanto as condições sociais possuem desdobramentos importantes na aprendizagem e desenvolvimento pessoal dos indivíduos. Apontam cristalinamente o quanto o meio é fundamental para que um indivíduo se constitua com competências e habilidades necessárias para um aproveitamento integral das condições sociais oferecidas. Considerar, por exemplo, que uma criança educada em condições de vulnerabilidade social, com educação precária etc, tem as mesmas condições de aprendizado oferecidas a uma criança educada em situação inversa, com segurança social e familiar, é ignorar que vivemos em uma sociedade de privilégios. Não há mérito nessa competição. As cartas estão marcadas.
A Revista Mente Cérebro (Scientific América), número 257, traz uma matéria intitulada “Pobreza prejudica a inteligência?”, que não pode passar em branco. O estudo aponta que a forma como o cérebro e a estrutura mental de uma criança se constituem dependem também do grau de educação dos pais, ou seja, do ambiente em que essa criança é educada. É bom lembrar que segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1 bilhão de pessoas vivem em extrema pobreza, com menos de um dólar por dia. Só esse dado seria suficiente para reavaliar nossa postura arrogante de pretensos vencedores sociais. A pesquisa aponta, por exemplo, que crianças menos favorecidas têm menor condição de desenvolvimento linguístico e sua consciência fonológica prejudicada, o que, vale lembrar, é estruturante para várias outras habilidades e competências. Crianças que vivem em condições de pobreza apresentam, ainda, elevado nível de estresse, que está relacionado ao desenvolvimento da memória.

Tomar casos excepcionais de “vencedores” saídos de condições adversas é tomar a exceção pela regra. Propaladores da meritocracia adoram estorinhas de superação. Elas são apenas um recorte num universo de injustiças sociais que deixam inúmeros infortunados que, ainda por cima, passam a ser estigmatizados. Um horror.