Civilização e Barbárie

Publicado dia 13 de dezembro na Gazeta do Sul

Numa semana em que a Comissão da Verdade entrega à sociedade brasileira seu relatório sobre os crimes hediondos cometidos pelos partícipes da ditadura civil-militar que “governou” este país entre os anos de 1964 e 1985, é preciso que a sociedade esteja atenta sobre os desdobramentos deste importantíssimo documento. Em primeiro lugar, é para além de partidos políticos que precisamos nos posicionar. É sobre crimes, bandidagens, homicídios e torturas que estamos falando. De brasileiros e brasileiras, homens, mulheres e, como até há pouco comprovado, crianças, que estamos nos referindo. São cidadãos que foram torturados e assassinados pelo Estado (de exceção). Jovens idealistas, conforme a mentalidade da época, que morreram por assumirem uma postura política contrária a setores que historicamente assaltaram este país. A Comissão da Verdade deveria unir esta nação em nome da justiça, independentemente de posturas à esquerda ou à direita, em nome da dignidade humana e da democracia. Somos uma sociedade que vem batendo recordes históricos de desigualdades e injustiças. Nada mais sensato que, pelo menos, se faça justiça e se puna exemplarmente os apontados pelos crimes perpetrados. Criminosos que, vale dizer, agiram em nome do Estado e por ele foram acobertados. É a oportunidade de dignificar um Estado que tradicionalmente maltrata os cidadãos ditos comuns, os que trabalham arduamente dia-a-dia para fazer deste país uma civilização que valha a pena. Defender a punição dos criminosos apontados pela Comissão da Verdade não pode ser reduzido à uma postura de esquerda como costumam rotular quem propõe uma crítica à sociedade em que vivemos. Nada disto. Esta seria uma crítica razoável em qualquer país com certa decência ou senso de justiça.
Pois bem, na mesma semana da divulgação do Relatório da Comissão da Verdade, que representa o senso de justiça e de indignação pública frente aos anos sombrios que vivemos, vem a público um filhote da ditadura protagonizar o que temos de pior, de mais baixo e de retrógrado. Trata-se, mais uma vez, dos rompantes fascistas do deputado Bolsonaro, militar da reserva e membro do Partido Progressista, que atacou covardemente a deputada Maria do Rosário, afirmando que só “não a estupraria porque ela não merece”. Ato criminoso, confesso, que precisa ser urgentemente punido. Bolsonaro é o símbolo maior do atraso. Estereótipo dos restos históricos do que de mais bárbaro produzimos neste país. As manifestações de Bolsonaro têm eco em nossa sociedade. Há quem o tome por um herói do politicamente incorreto. Há ignorância de sobra para fazer de Bolsonaro um porta-voz de setores reacionários que vilipendiam nosso processo civilizatório.
Estamos demorando muito em fazer da democracia um meio de crescimento social, de alavanca por mais igualdade e justiça. A democracia é delicada, é preciso cultivá-la cotidianamente, caso contrário ela pode ser um atalho para a barbárie.

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