Ditadura, vícios e Corrupção

Publicado na Gazeta do Sul, em 06 de dezembro de 2014

Durante a campanha presidencial deste ano o tema da corrupção foi, sem dúvida, o mais badalado. Motivou rompantes moralistas na grande imprensa, manifestações de “celebridades” vexatórias, como as protagonizadas por Lobão, passeatas com direito a saudosismos da ditadura militar, pedidos de intervenção aos EUA, aliados em diversos golpes na América Latina, e por aí vai. O tema corrupção esteve, ainda, e com voracidade, atrelado ao chamado antipetismo. Parece-me que este fora o motivo pelo qual ela se inflacionou tanto, pois pode ser identificada e focada num partido/governo de forma explícita e amplificada. Esta talvez tenha sido a maior lição que o PT levou destas eleições. Organizar um discurso partidário norteado pela moralidade tem riscos enormes, sobretudo quando o poder é conquistado. Como imaginar uma máquina gigantesca, como o tradicionalmente viciado Estado brasileiro, imune à corrupção em função da moralidade de um partido? Evidentemente isso é ingenuidade. Os casos de corrupção nos últimos anos, nomeadamente a partir do mensalão, responsável pelo desvio 53 milhões de reais, foram fartamente apresentados pela mídia. E isso só foi possível porque, é preciso reconhecer, vivemos numa democracia. Para além dos últimos casos de corrupção, é preciso chamar a atenção para outro fato, claríssimo, evidente, mas negado ou invisibilizado: a corrupção não foi invenção da última década. E já que em algumas manifestações públicas os militares foram chamados a moralizar o país, vale a pena darmos uma rápida olhada no quanto a ditadura foi corrupta e, o que é mais grave, como ela corrompeu o próprio tecido social.
A historiadora Heloisa Maria Murgel Starling, mostra em importante artigo, publicado na “Revista de História.com” (23-03-09), o quanto o regime foi corrupto. A tortura, por exemplo, foi uma das práticas profundamente marcada pela corrupção. Segundo Heloisa, “para a tortura funcionar é preciso que na máquina judiciária existam aqueles que reconheçam como legais e verossímeis processos absurdos, confissões renegadas, laudos periciais mentirosos. Também é necessário encontrar gente disposta a fraudar autópsias, autos de corpo de delito e a receber presos marcados pela violência física. É preciso, ainda, descobrir empresários dispostos a fornecer dotações extra-orçamentárias para que a máquina de repressão política funcione com maior precisão e eficácia”. O historiador Carlos Fico, no livro “Como Eles Agiam: os Subterrâneos da Ditadura Militar” (2001), mostra com clareza e abundância documental, como a corrupção correu solta nos anos de chumbo. Para se ter uma ideia, em cinco anos, de 1968 a 1973, foram abertos 1.153 processos de corrupção, contudo, 1000 foram arquivados, ou seja, não deram em nada. É bom lembrar ainda, que entre 1969, ano do famigerado AI5, até 1974, período do chamado milagre brasileiro, quando o dinheiro correu solto, não foi instalada nenhuma CPI no Congresso Nacional. 


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