Fascistas Contemporâneos

Publicado 19 de dezembro de 2015 na Gazeta do Sul



Márcia Tiburi acertou em cheio ao publicar um livro que interroga a possibilidade de dialogar com fascistas. Quem são os fascistas contemporâneos?

Algumas características permitem identificar o fascista. Em primeiro lugar é preciso chamar a atenção para a total ausência de inteligência no fascista. Ele pensa a partir de clichês, de modelos prontos e rígidos de pensamento. Olha o mundo a partir de sua estreita experiência de vida. Acha que a forma como vê o mundo é a única, a norma. Tem pavor de qualquer um que o confronte com ideias ou proponha alguma forma de diálogo. Geralmente tenta desqualificar seus interlocutores, pois não pode desqualificar as ideias. Para o fascista, por exemplo, todo intelectual é um pseudo-intelectual. Intelectuais, por sinal, são odiados por fascistas. Para ele qualquer pensamento crítico soa como um atentado à ordem. O fascista tem poucos recursos intelectuais para o diálogo e a mudança, é um conservador nato, quanto menos mudança menos ameaça a seu mundo de ordem e certezas. Como adverte Tiburi, “a função da certeza é negar o outro”. Como o fascista não admite o diálogo, pois o ameaça, ele institui a violência e o ódio como mediações de suas relações com a diferença. E, segundo a autora, “há algo assustador no ódio contemporâneo. Não se tem vergonha dele, ele está autorizado hoje em dia e não é evitado”. O fascista quer a eliminação do outro assim como o autoritarismo advoga a destruição da democracia.

O fascista é negacionista e perverso. Sustenta-se pela ideologia na negação: nega o racismo, a homofobia, as conquistas históricas, o que há de bom em seus opositores e, claro, a luta e as desigualdades sociais, etc. O pior, na sua perversidade, imputa o racismo às suas vítimas (como apregoa o criminoso racismo reverso), imputa aos homossexuais e às mulheres a culpa pelas violências sofridas, acha que os “pobres” odeiam os “ricos” e os “negros” odeiam “brancos” (ele jamais diz: brancos odeiam negros e ricos odeiam pobres). Não é capaz do mínimo pensamento crítico às suas (im)posturas. Para ele, em sua plena ignorância, ideologia é todo pensamento que o contraria. Não consegue perceber que seu pensamento é, também, ideológico. Não raro o fascista atribui suas verdades a um lastro divino, se autointitulando muito religioso, por exemplo, como um recurso místico de autoridade. É um sacerdote da norma e da verdade e, como tal, não pode admitir a política e sua inerente pluralidade. Geralmente o fascista, em sua obtusidade, se diz apolítico, acha positivo afirmar que suas causas não são ideológicas. Todos que o contrariam são fundamentalistas. É o vazio do pensamento que opera na lógica do fascista contemporâneo. Como afirma um personagem muito odiado pelos fascistas, Jean Wyllys, “a burrice é o cancelamento do processo de conhecimento e imaginação”. Não é sem sentido que para Hannah Arendt “o fascismo é a máscara mortuária do conhecimento”.


Violência como lógica social (parte I)

Publicado na Gazeta do Sul dia 17 de outubro de 2015


As últimas declarações de Bolsonaro sobre violência, criminalidade e papel da polícia militar, demonstram o quanto estamos atrasados, sobretudo se considerarmos a significativa plateia que faz eco às suas descerebradas declarações. Segundo o parlamentar, “violência se combate com violência, e não com bandeiras de direitos humanos. Eu acho que essa Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais”. Para alguns analistas, políticos como Bolsonaro, entre outros, são representações menores, bizarrices que pouco influenciam nas discussões sobre os destinos do país. Particularmente, penso que toda declaração pública de um parlamentar, mesmo as excrescências, deve ser levada a sério. Num contexto de expansão do discurso de ódio e do despudor de posturas fascistas, declarações como as de Bolsonaro cumprem um papel importante no processo de corrosão da democracia e do Estado de Direito. Não causa espanto, nesta direção, que uma pesquisa realizada pelo Datafolha apontou que “metade do país acha que bandido bom é bandido morto” (Folha, 05/10).
Um bom documento para embasar as discussões sobre a violência como lógica social, sobretudo os papeis do Estado e da polícia na construção desta lógica social, acaba de ser publicado. Trata-se do 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Segundo o documento, somente no ano passado 398 policiais foram mortos em “combate” no país. É preciso entender que policiais são vítimas de uma lógica da violência que estrutura o próprio Estado, cuja tradição autoritária é bem conhecida. Este é o sentido da formação policial estar associada à lógica militar, ou seja, a lógica da guerra, o que em nada contribui para a segurança pública, ao contrário, amplifica a própria violência, que vitimiza também, vale dizer, a própria polícia. Como afirmam Renato Sérgio de Lima e Samira Bueno, em texto do Anuário, “Estamos diante de um ‘mata-mata’ extremamente cruel, que incentiva a ideia de policial vingador, porém não oferece aos quase 700 mil policiais nada além de uma insígnia de herói quando de suas mortes em ‘combate’”.
Considerando-se os números apresentados pelo Anuário, a polícia brasileira está a serviço de um verdadeiro genocídio. “A cada 3 horas uma pessoa foi morta pela polícia no ano passado, resultando em 3022 vítimas”. Para se ter uma ideia, segundo Renato de Lima e Samira Bueno, “o número de mortos decorrentes de intervenção policial já é a segunda causa de mortes violentas intencionais e é 46,6% superior ao número de latrocínios.  Este número representa também 37,2% de crescimento da letalidade policial em relação a 2013.
Para Pedro Abramovay “a única explicação para a aceitação de uma polícia tão letal é a visão, pelo conjunto da sociedade, de que há vidas descartáveis. E não nos iludamos, entre essas vidas descartáveis estão os 398 policiais mortos em 2014”. Por que somos indiferentes estes números/pessoas? É preciso olhar quem são as vítimas, de fato, desta “guerra”.


Vidas Nuas

Publicado no jornal Gazeta dia 12 de setembro de 2015

Um menino refugiado/imigrante morto aparece no litoral da Turquia e “comove” o “mundo”, chama a atenção pra si, torna-se emblemático de uma existência cada dia mais brutal. A imagem é a da morte em sua aspereza ímpar, pois é a imagem de uma morte sem motivo aparente, do abandono completo, da solidão e da vulnerabilidade. A frágil criança morta deveria nos fazer olhar para uma multidão de “vidas nuas”, para usar a expressão do filósofo italiano Georgio Agamben, que vagam pelo planeta de campo em campo de refugiados, que transitam pelas margens do sistema e espreitam fronteiras cada dia mais cercadas e muradas, fronteiras que anunciam a inumanidade. A criança morta representa aqueles que vivem a condição da morte iminente, a condição de vivos-mortos. Aqueles que podem ser mortos a qualquer momento sem que com isso sejam considerados vítimas de assassinato. “Vidas nuas” que desprezamos e que julgamos serem vidas que não merecem ser vividas, que são redundantes e excedentes. Esta é a condição, por exemplos, dos imigrantes ilegais (e mesmo os legais) que vivem em permanente “estado de exceção”, em total vulnerabilidade, vidas que não são qualificadas e socialmente constituídas. O que nos emociona no menino do mar da Turquia é, ainda, sua singularidade. Uma única pessoa morta ainda nos reporta a uma identidade, e pode nos sensibiliza mais do que uma multidão de cadáveres. Mas por que não nos tocamos tanto, por exemplo, com as centenas ou milhares de africanos que semanalmente morrem no mar mediterrâneo, com as crianças abatidas pelos EUA no Iraque e Afeganistão (consideradas danos colaterais), nem mesmo com as muitas crianças indígenas que tombam nas mãos de madeireiros e mineradores no norte do Brasil ou mesmo com as crianças e jovens das nossas periferias assassinados diariamente por forças do próprio Estado?
Na mesma semana em que paralisamos por alguns momentos frente a esta imagem da infância morta, somos confrontados com as cenas odiosas de uma jornalista húngara (Petra László), da rede de extrema-direita “N1TV”, agredindo aos pontapés refugiados sírios, inclusive crianças. A jornalista fazia a cobertura de um evento, por si só terrível: a perseguição policial a imigrantes desesperados num campo de refugiado localizado entre a Sérvia e a Hungria. Os campos de refugiados, a cada ano multiplicados, são espaços da inexistência, do não-lugar e da inumanidade. O campo é o espaço privilegiado da vida nua. Hoje mais de 12 milhões de vivos-mortos estão sufocando nos campos espalhados pelo mundo.
São os mesmos fios que tramam a história dos refugiados agredidos pela jornalista húngara e do menino solitário que jazia abandonado no litoral da Turquia. Por um momento estas tragédias que ocorrem silenciosamente e cotidianamente nos despertam certa empatia, alguma fagulha de um envelhecido humanismo. Um breve despertar para a alteridade, provavelmente efêmero, que não resistirá a próxima “postagem”.

Haitianos no Brasil

Publicado em 15 de agosto de 2015 na Gazeta do Sul

Nestes tempos de perda do pudor e da vergonha, em que discursos de ódio e preconceitos de toda ordem invadem as redes sociais, e não só elas, assistimos um país perdendo dia a dia sua capacidade, até então considerada um traço cultural, de assimilar e negociar com as diferenças. Uma sociedade que se apresentava como tolerante e não-racista, uma digníssima “democracia racial”, deixa cair a máscara e se mostra ao mundo com o que temos de mais perverso. A maneira como temos lidado, nos últimos tempos, em relação à entrada de imigrantes haitianos no Brasil é lamentável e demonstra a fragilidade de nossa “tradição” multicultural, ou melhor, intercultural. Estamos sendo confrontados com um país que cultiva ódios, dissemina violência e se desumaniza cotidianamente, mostrando, de fato, o quanto o nosso arranjo social é instável.
No dia 01 de agosto, no centro de São Paulo, seis haitianos foram baleados. Um dos atiradores teria dito às vítimas antes de atirar: “haitianos, vocês roubam os nossos empregos”. Foram dois ataques, um dos quais em frente à igreja onde funciona a Missão Paz, entidade que abriga e orienta imigrantes além de combater o trabalho escravo e o tráfico humano. Os haitianos começaram a entrar no Brasil a partir de 2010, depois que o Haiti foi praticamente destruído por um terremoto que matou mais de 300 mil pessoas e deixou outras 300 mil desabrigadas. Trata-se de uma crise humanitária. E foi com este entendimento que o Estado brasileiro passou a tratar o caso dos imigrantes haitianos, abrindo uma exceção à lei dos refugiados, concedendo-lhes visto e direitos como carteira de trabalho, passaporte e CPF.
É no mínimo contraditória, para não dizer imoral, a postura de muitos brasileiros frente à entrada dos imigrantes haitianos. Um país construído a partir de fluxos migratórios recentes como o nosso, adotar uma postura xenófoba revela o quanto estamos nos tornando intolerantes e o quanto temos uma visão distorcida dos fenômenos migratórios. Se por um lado gostamos de um proselitismo em relação aos nossos antepassados que chegaram ao país como imigrantes, por outro esbravejamos contra os imigrantes que hoje estão chegando.

A chegada dos haitianos iniciou num momento econômico e politico bem diferente do que estamos vivendo hoje. Era um momento em que experimentávamos uma ascensão social e econômica, que tínhamos, inclusive, carência de mão de obra. Contudo, mesmo naquele período de abundância de empregos manifestações xenófobas contra os haitianos já eram repercutidas, mas timidamente. Hoje a situação é diferente. Temos um ambiente não só de crise econômica, mas moral e cultural. Vivemos a ascensão da política do ódio e da intolerância. Temos um bom motivo para mobilizar nossas forças contra imigrantes que “ameaçam nossos empregos”. “Não se trata de racismo, é uma questão econômica, de empregabilidade”. Para “tirar a prova” seria interessante observar como nos comportaríamos com imigrantes escandinavos. 

Preconceito "Oculto"

Publicado na Gazeta do Sul em 11 de julho de 2015



É evidente que as pessoas não vivem com um tratado histórico-sociológico debaixo do braço, nem refletem sobre suas falas e ações cotidianamente. É sobre este lançar mão de experiências já automatizadas ou rotinizadas que hábitos, para o bem ou para o mal, se cristalizam e passam a constituir a tessitura da vida cotidiana. Dentre estes, muitos vícios e pequenas perversidades diárias passam despercebidos, como as expressões oriundas de relações profundamente racistas que orientam o cotidiano dos brasileiros. Trago aqui algumas destas expressões que Stephanie Ribeiro, do Blogueiras Negras, lista como aquelas que devem sair de nosso vocabulário ordinário.
Houve tempo em que dizer “trabalho é coisa de negro” apontava para a condição sócio-racial de quem trabalhava, o escravo. A partir do final do século XIX, com o fim do sistema escravista e a reestruturação da sociedade sob a égide do darwinismo social, o negro é capturado por outra lógica e passa a ser considerado um preguiçoso nato. Uma nova expressão se populariza: “amanhã é dia de branco”. Outra expressão muito comum nos nossos dias é “serviço de preto”, sinônimo de trabalho ruim ou desqualificado. É bom lembrar que a tradição escravista nos legou uma ética da desvalorização do trabalho. Legitimada pelas teses da pseudociência social-darwinista, a expressão “da cor do pecado” passou a ser usada para referir a herotização ou sexualização da “mulata” no Brasil. Nina Rodrigues, famoso médico e antropólogo da Faculdade de Medicina da Bahia, dizia, no final do século XIX: "A sensualidade do negro pode atingir então as raias das perversões sexuais mórbidas. A excitação genésica da clássica mulata brasileira não pode deixar de ser considerada um tipo anormal”. Era esta a visão da época que nos chega e compõe nosso imaginário. Ainda sob o manto do escravismo perverso, a expressão “não sou tuas negas”, traz um universo de preconceitos e estereótipos sociais arraigados. O sistema escravista fez do estupro e do abuso sexual uma regra social. Senzalas eram também haréns. “Cabelo ruim” e todos os seus derivados, apontam para a negação da estética negra, por muito tempo inculcada, inclusive pela comunidade negra. Com o movimento “Negritude” a autoimagem e a autoestima passaram a ser resignificadas, mas ainda sofremos com seus desdobramentos perversos. “Nasceu com um pé na cozinha”, famosa por ter sido utilizada pelo ex-presidente FHC, aponta para uma maneira de amenizar as distâncias sociais e raciais afirmando uma origem negra comum. Mostra, evidentemente, como o imaginário social define os espaços e os direitos sociais de raça e gênero. A mulher negra é comumente associada aos serviços domésticos. As novelas brasileiras constituem um verdadeiro manual de como naturalizar os espaços sociais de negros e brancos no Brasil.
O racismo, como estruturante, está em tudo e em todos. É preciso não apenas reconhece-lo, mas identificar por onde ele se naturaliza e invisibiliza.

Liberalismo e Neoliberalismo (partes I e II)

Publicado nos dias 27 de junho e 04 de julho de 2015 na Gazeta do Sul



Liberalismo e neoliberalismo
Qual a diferença entre liberalismo e neoliberalismo? É ao estabelecermos as diferenças entre estas posturas doutrinárias ou teóricas que possibilitamos um melhor entendimento de como as sociedades contemporâneas vêm se constituindo. A pergunta melhor colocada seria: qual a singularidade do neoliberalismo? Não se trata apenas de entendê-lo como uma expansão do liberalismo, sua maturidade ou consequência natural. Em primeiro lugar, para entendê-lo temos que nos livrar da tendência de considerá-lo como conservador ou reacionário, em que pese poder estar associado a estas posturas em conjunturas políticas estratégicas, sobretudo em se tratando de inimigos comuns a ambos. Melhor seria tentar compreendê-lo a partir da singularidade de sua racionalidade, de sua “utopia”.
Para o liberalismo clássico, aquele advindo de Adam Smith e do corolário “laissez-faire”, o que estava em jogo e o que era proposto era a limitação do Estado e a constituição de um espaço livre de restrições para o funcionamento do mercado. Melhor do que dizer limitação seria dizer separação de esferas de intervenção. Segundo Geoffroy de Lagasnerie, autor do livro “A última lição de Michel Foucault”, no liberalismo encontramos “de um lado o mercado e a racionalidade econômica e, de outro, o Estado e a racionalidade política, e todo o problema consiste em dizer ao Estado: a partir de tal limite, quando se tratar de tal questão e a partir das fronteiras de tal domínio, aí, você não intervirá mais”. A questão aqui é a delimitação de espaços de ingerências e de tipos de racionalidades. O que muda com o neoliberalismo? Muito. Não se trata mais, como no liberalismo, de estabelecer fronteiras entre a racionalidade econômica e a política e sim romper com estes limites. O que se pretende é a disseminação totalizante do mercado, submeter toda a sociedade à lógica da competividade e concorrência, que deve, neste caso, assumir a função de reguladora do social. Noutros termos, a sociedade como um todo deverá funcionar a partir da forma “competitividade-concorrência-mercado”. É por isso que cada vez mais é preciso difundir a ideia da meritocracia, da formação educacional continuada/eterna, da autoajuda e da gestão de si como se cada indivíduo fosse uma empresa. Neste sistema de concorrência e inovação constante, o emprego se insere na dinâmica do risco/imprevisibilidade. Trata-se de uma nova gestão da empregabilidade, sujeita à flexibilização e incertezas, que tem por consequência a ruptura com o devir, com o futuro. O que temos é a obesidade do presente, com seu corolário da “satisfação imediata dos desejos”. Ao contrário dos sistemas rígidos e verticalizados do fordismo-taylorismo, o que assistimos é a humanização e potencialização dos afetos, emoções, criatividades e prazeres, sempre acoplados ao mundo do trabalho. Toda esta “profunda humanização”, pode, agora, ser instrumentalizada no ciclo produtivo. 


Liberalismo e neoliberalismo II
Há uma marcante diferença entre liberalismo e neoliberalismo. Se no primeiro temos uma separação entre a racionalidade política e a racionalidade econômica, no segundo esta fronteira é esmaecida, ou seja, no neoliberalismo a racionalidade econômica tende a cobrir a totalidade da vida social. O conceito chave para entendermos esta dinâmica é o de Capital Humano, desenvolvido nos anos 1960 pelo teórico do neoliberalismo, Theodore Schultz. Em linhas gerais, o Capital Humano transforma as capacidades do indivíduo, suas características, aptidões, habilidades e competências em capital. O humano/indivíduo é considerado, portanto, um valor de mercado. E é para o mercado que ele deve se constituir como tal. O indivíduo, nesta perspectiva neoliberal, deve se ser entendido como uma “microempresa”, um empreendedor de si, um sujeito autônomo e responsável pelo valor de capital intrínseco em si. É o chamado “homo economicus”. É por isso que a educação, por exemplo, deixa de ser considerada como gasto e passa a ser percebida como um investimento. E, como tal, deve ser permanente. Fica evidente, também, o individualismo exacerbado nesta nova fase do capitalismo, ou melhor, do neoliberalismo. É o indivíduo que deve ser responsável pela sua formação, pela sua educação, pela sua saúde, pelo seu governo, pelo seu sucesso ou fracasso. Estar fora ou dentro do jogo é sua responsabilidade. É o seu mérito ou demérito que está em jogo. O indivíduo deve se perceber livre, deve governar a si mesmo, tomar decisões e fazer as melhores escolhas e estratégias para competir. Aqueles que fracassarem em prosperar sob tais condições sociais não podem culpar ninguém nem coisa alguma além de si mesmos.
O neoliberalismo inaugura uma nova fase do capitalismo, também chamado de conexionista, em rede ou cognitivo. E nesta fase, soma-se ao imperativo do capital humano, a competitividade. É a competitividade que organiza a lógica social no neoliberalismo e não mais a chamada “antropologia das trocas”. Uma sociedade-empresa é o desdobramento desta lógica. É interessante observar, entre as profundas mudanças operadas nesta sociedade-empresa que vivemos, como a produção, o trabalho e a gestão foram reorganizados. O capitalismo contemporâneo faz da criatividade, da autonomia, da mobilidade e da iniciativa uma estratégia de transferência dos processos de controle do trabalho e da produção. Mas como controlar a criatividade e a autonomia, estas coisas incontroláveis? Como aponta o filósofo Peter Pelbart: 1) fazendo com que as equipes auto-organizadas (de trabalho) se controlem a si mesmas; 2) lançando mão das noções de mobilização e prazer no trabalho, sem que nada lembre controle ou manipulação; 3) Fazer da importância da satisfação do cliente um modo de transferência de parte do controle para fora da empresa, ou seja, é o cliente que deve exercer o controle. Esta e a novidade: no neoliberalismo, governa-se tudo com menos governo possível.

Discurso de ódio e racismo

Publicado dia 13 de junho na Gazeta do Sul




Estamos tão acostumados a legitimar um certo tipo de narrativa identitária que nos constitui como uma nação sem racismo que ficamos absolutamente cegos ao evidente e palpável. Contudo, nos últimos tempos, tempos de um neoconservadorismo cujas metástases já são percebidas em vários setores em nossa sociedade, o racismo não só ficou explícito como tem se afirmado despudoradamente. Sempre foi muito confortável para as “zelites” brasileiras manter esta narrativa de um país livre do racismo, até porque com ela se mantinham privilégios e hierarquias sociais fundamentais para naturalizar as desigualdades. É ótimo não precisar assumir o racismo num país em que as universidades, sobretudo as públicas, os bons hospitais e os bons empregos são majoritariamente espaços de exclusão para não-brancos. Evidentemente isso não significa dizer que não-brancos não possam participar da festa, claro que sim, e quando alguns conseguem, “bingo”, podemos lançar mão da meritocracia e bradar a todos como o esforço individual vale a pena, ou seja, a igualdade está logo ali, só não vê quem não quer ou não se esforça o suficiente. A lógica deste raciocínio, típico da Casa-Grande, é clara.
Muito bem, para além do que é notório na miudez do cotidiano, destacamos dois casos hiperbólicos que marcaram tristemente a semana.
As manifestações racistas sobre a imigração de haitianos pululam na imprensa e nas redes socais. Um país como o Brasil, feito a base de imigrações, lançar mão de discursos xenófobos, é no mínimo incoerente. É evidente que se a imigração fosse de europeus não teríamos este desfile de barbaridades que são alardeadas sem pudor algum. O momento áureo destes absurdos foi o vídeo gravado por um sujeito vestido de policial onde se mostra orgulhoso de seu nacionalismo brega tripudiando um trabalhador/frentista haitiano. Interessante como as pessoas saem em defesa do trabalhador nacional quando se está frente a questões de imigração.
O segundo caso é típico da virulência de haters que disseminam ódio e preconceito nas redes sociais. Desta vez a vítima foi o ator mirim da novela Chiquititas, Kaik Pereira, de 12 anos. O “hater” chamou o menino de “macaco”, “preto safado”, “nojento” e “imundo”, além de dizer que o menino deve ter inveja de seus cabelos louros e olhos azuis bem como afirmar que Kaik “tem que morrer queimado”. A violência e a crueldade são amplificadas pelo anonimato, mas traduz, de certo modo, o que se ouve em muitos espaços privados e, não raro mais, em espaços públicos, como nos estádios de futebol.
O racismo brasileiro, comumente velado e escorregadio, que se mostra mais facilmente nas brincadeiras, piadas e estatísticas de saúde, educação e bem estar-social, está assumindo outra forma com o advento das redes sociais. O escritor Humberto Eco afirmou esta semana que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. É nas redes sociais, também, que muitos cidadãos “ditos de bem” perdem seu pudor.