Duas Coisas

 Publicado no jornal Gazeta do Sul em 07 de fevereiro de 2015

O custo do pragmatismo
O pragmatismo político adotado pelo PT representou, de certa forma, o amadurecimento de um partido que, fortalecido pelo status de oposição e reserva política-moral, percebeu um momento histórico favorável para assumir o poder. Contudo, este pragmatismo tem um custo alto e o primeiro deles foi o desencantamento de parte significativa de uma militância crente em uma “missão histórica” redentora, finalista e triunfalista. E por que isto representa um custo? Porque era justamente esta militância que abastecia a mística do partido. O pragmatismo trouxe o PT ao chão, a um princípio de realidade do poder que até então era apenas experimentado em termos regionais. Era preciso acelerar a história e, para tanto, assumir que não seria a ideia de um partido político que seduziria os eleitores brasileiros, mas sim outra mística, de contorno tradicional, sebastianista e obesamente ibérica: o salvacionismo paternalista. Não é sem sentido que a primeira eleição presidencial vitoriosa do PT tenha sido encaminhada pelo viés carismático, encarnado com naturalidade e genialidade por Lula, o timoneiro da verdadeira história do Brasil. O problema é a longevidade desta construção política, pois carisma não se transfere. O quanto é possível/necessário abrir mão? Lula não encarnou o personalismo tradicional da esquerda triunfante do século XX, mas sim potencializou o personalismo político de tradição conservadora e patrimonialista, incrustado na formação política brasileira desde sempre. Com o tempo, o resultado é o contínuo enfraquecimento político-partidário e a fadiga do carisma, quando não sua inversão. A avalanche que vem atropelando Dilma e, sobretudo, o PT, é o resultado desta dupla crise, mais do que os casos de corrupção que pululam na imprensa. A crise se sustenta menos na corrupção econômica do que numa espécie de corrupção moral, traduzida no antipetismo.

Quem é Eduardo Cunha?
O novo líder da Câmara dos Deputados, eleito com 267 votos no domingo passado. Este senhor representa o que se tem de pior na política nacional. Pra começar, Cunha começou sua trajetória política pelas mãos de PC Farias, na época do governo Collor, quando foi indicado para direção da estatal telefônica do Rio de Janeiro (Telerj). Saiu da estatal após escândalos de corrupção. Ressurgiu no cenário político no final dos anos 90, pelas mãos de Garotinho. Cunha tem em seu currículo a autoria de projetos absurdos como o “Dia do Orgulho Heterossexual”. É apoiador da proposta de criminalização da heterofobia, de autoria do famigerado Pastor Feliciano. Faz parte da bancada Evangélica, o que explica que entre seus admiradores está Silas Malafaia. Falar nisso, Cunha, como bom evangélico, fundou uma Igreja, chamada “Sara Nossa Terra”. Responde a inúmeros processos. Como é vinculado ao PMDB-RJ, em tese é da base aliada do governo, como o líder do Senado, Renan Calheiros, que também é réu em inúmeros processos. Custos do pragmatismo político.


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