Reflexões necessárias (final)

Publicado na Gazeta do Sul no dia 21 de fevereiro de 2015

Última parte da entrevista com o historiador Marçal Paredes, iniciada semana passada.
3) Fala-se hoje num novo arranjo das esquerdas. O PT teria lugar neste arranjo?
Depende de qual PT estamos falando. Parece-me que temos muitos partidos dentro da mesma sigla: nos anos 1980 isso também existia, mas era sinônimo de pluralismo; agora não, depois de três mandatos na presidência, há mais “governistas burocráticos” do que “petistas históricos”. E mais: grande parte das “esquerdas” deste arranjo surgiu em ruptura com o petismo governista. Lamentavelmente, o PT está cada vez mais parecido com o PMDB, tanto no governo patrimonialista quanto na defesa fisiológica do partido.

4) Frente ao cenário político brasileiro atual, como avalia o papel da oposição ao pedir o Impeachment de Dilma Rousseff?
Sem provas irrefutáveis da culpa ou benefício direto da Dilma (inexistentes até o momento), qualquer movimento pelo impeachment é apenas midiático, é um jogo para desgastar politicamente o governo. Trata-se de uma manobra perigosa, até porque reascende o espectro da queda do Collor e do golpismo lacerdista contra Getúlio.

5) Como caracterizaria este momento político que estamos vivendo?
É de lamentável baixeza política: de um lado, um antipetismo raivoso, irascível, antidemocrático e potencialmente golpista; de outro, um petismo governista e militantemente cego. O detalhe, nada desprezível, é que ambos falam em nome da “defesa da nação”, os primeiros contra a corrupção, os segundos contra o golpe da grande mídia. Ambos pensam a política em termos maniqueístas: todos se dizem arautos da verdade – da sua verdade –, diminuindo o valor do seu opositor a pó. Não há democracia saudável nestes termos. A perda da capacidade de negociação, de debate político em torno de ideias e projetos, é o saldo da última eleição – sobretudo pelo que se viu nas redes sociais. E foi um espetáculo de horror.

6) Qual o papel da mídia neste processo de crise política que vivemos hoje?

Esta questão é complexa. Primeiro, porque a mídia carrega o estatuto da “realidade”. O que não aparece no jornal (parece que) não aconteceu. E sabemos todos que há interesses demasiadamente grandes atrás das corporações de mídia. Mas esse é um lado da questão (o mais evidente). Há outros: um deles é a capacidade dos veículos tradicionais ainda alcançarem um público além do seu “cativo”. Explico: se estamos cada vez mais conectados à internet, também estamos diante de outras fontes de informação – e mais críticos de sua qualidade, portanto. Isto ultrapassa a relação que se estabeleceu entre a “ideologia” dos media e a “manipulação” da sociedade. No contexto Collor não há dúvida dessa relação ter sido direta, tanto na ascensão como na queda. Hoje tenho dúvidas sobre uma interpretação similar àqueles tempos. Os movimentos de tipo Occupy, por exemplo, disseminaram-se via redes sociais. É nelas que se dá a nova arena política. A nova Ágora transmuta-se on line.

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