Reflexões necessárias (I)

Publicado na Gazeta do Sul em 14 de fevereiro de 2015



Nesta semana e na próxima, trago ao leitor uma entrevista sobre o contexto político atual com o historiador Marçal Paredes, doutor em História pela Universidade de Coimbra e Coordenador do PPG em História da PUCRS.

1) Três décadas após a ditadura militar, como avalia a democracia brasileira nos dias atuais?
São inequívocos os progressos da economia, da saúde, da educação, da inclusão social. São fantásticos os ganhos políticos: a vitória de Lula nas eleições de 2002, a transição política pacífica e serena até sua posse, são prova cabal disto. Contudo, isso não quer dizer que não tenhamos desafios: estamos passando por (mais uma) crise de amadurecimento político, uma crise repleta de dilemas. Exemplo: é a primeira vez que o âmbito empresarial da corrupção – e não só o político – vem à tona. Isso é importantíssimo. Além da óbvia apuração das responsabilidades, talvez isso sirva para dar mais transparência ao Estado, não apenas no aspecto político das nomeações e dos cargos (a lei da transparência é um enorme avanço), mas para deixar mais cristalino o processo de contratação e prestação de serviços. Por que uma das heranças mais maléficas do período da ditadura – e isto não tem sido suficientemente lembrado – é a pouca ou nenhuma capacidade da sociedade civil fiscalizar (política, econômica e eticamente) o Estado. Na ditadura, qualquer investigação podia ser acusada de estar “contra o interesse nacional”. Isso criou uma zona nebulosa onde se imiscuíram parte do setor empresarial e parte do político para alavancar benefícios escusos. Os escândalos atuais não são exclusividade do atual governo. Simbolicamente eles desnudam uma prática alicerçada num período onde o Estado não era passível de controle pela sociedade civil. Ainda estamos às voltas com a relação hierárquica do Estado em relação à sociedade. Ainda temos muitas chagas morais da ditadura para tratar.

2) Penso que é consenso que o PT teve papel fundamental no processo de redemocratização do país. Para chegar ao poder foi obrigado a ceder a certo pragmatismo e fazer algumas concessões. O pragmatismo ao mesmo tempo em que fortalece para estruturar o poder, não fragiliza a permanência no mesmo?
Atacaste esta questão numa crônica tua recente. Concordo no aspecto paternalista conservador encarnado na liderança carismática de Lula e também com a queda do PT ao rez do chão da política. Resta ao partido tentar sair da seguinte encruzilhada: ou assume seus erros e corta na carne (mutilando sua autodeclarada reserva moral) ou segue negando tudo, ora raivosa, ora burocraticamente (assemelhando-se, assim, aos partidos fisiológicos). Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Ainda sobre o pragmatismo: de todo, não é maléfico. Ele adapta-se às circunstâncias e produz uma possível resolução ou encaminhamento. A questão remete ao limite ético do pragmatismo: até onde ceder, até onde transigir.


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