Dizer tudo e a todos

Publicado na Gazeta do Sul, em 28-03-2015

Estamos vivendo um período de intensa hostilidade no Brasil, e nestes períodos de alteração de ânimos as pessoas acabam por mostrar seu lado mais sombrio e perverso. Para além das lamentáveis manifestações de ódio que assistimos nas ruas, são as redes sociais que potencializam e fazem expandir as ideias mais indecentes. As redes sociais, de fato, se instituíram como o grande espaço onde se pode dizer tudo e a todos, mas elas vêm se instituindo também como verdadeiro espaço catártico. Estamos fazendo das redes sociais um meio para o rompimento da fronteira entre o que pensamos e o que podemos dizer, entre o que podemos dizer no espaço privado e o que podemos dizer em espaço público. Noutras palavras, aquilo que pensamos sem muita noção, sem muita informação, sem cuidadoso embasamento, sem sustentação e critério, é despejado sem pudores nas redes sociais. Eliane Brum, em excelente artigo publicado no El País (02/03/15), chama a atenção sobre este fenômeno da perda do pudor e de seu desdobramento numa possível “espiral de ódio”. Segundo a autora, “pensamentos que antes rastejavam pelas sombras passaram a ganhar o palco e a amealhar seguidores. E aqueles que antes não ousavam proclamar seu ódio cara a cara, sentiram-se fortalecidos ao descobrirem-se legião. Finalmente era possível ‘dizer tudo’. E dizer tudo passou a ser confundido com autenticidade e com liberdade”. Quando recebemos pelas redes sociais postagens que incitam o preconceito e o racismo, estamos diante do quê? Esta semana, para citar um exemplo, corria pelas redes sociais um demonstrativo dos gastos regionalizados do Programa Bolsa Família com claro intuito de fomentar o ódio ao povo nordestino. O que se lia nos comentários era o que de pior conseguimos produzir em termos civilizatórios. O desdobramento deste tipo de coisa é uma sociedade menos tolerante, mais violenta e injusta. Isto sim promove a divisão e o rompimento de laços sociais básicos, fundamentais para a convivência.

Não se trata, evidentemente, de condenar a internet ou as redes sociais por tudo isto. Mas é importante notar que estamos frente a um fenômeno comunicacional cujos desdobramentos ainda são absolutamente incertos. É, de certa maneira, nova a ideia de vivermos nos confessando o tempo todo, nos mostrando e vigiando incessantemente. Estamos num mundo da espetacularização da vida cotidiana. Expomos, sem muitas reservas, nossas misérias e ignorâncias. Temos plateia, podemos dizer o que pretendemos, pois vamos, certamente, colher alguns aplausos, inclusive quando destilamos nossos ódios mais mesquinhos e nossa pequenez humana. 

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