Misérias brasileiras

Publicado na Gazeta do Sul, 28 de fevereiro de 2015

Um líder exemplar
Eduardo Cunha, o novo líder do Congresso, cumpriu uma de suas promessas de campanha ao conceder cotas de passagens aéreas para as esposas dos deputados federais, chamada nas redes sociais de “cota madame”. Noutras palavras, um privilégio típico de países atrasados que insistem em manter a classe política como se ela fosse uma espécie de nobreza atemporal. Transformar imoralidades em direitos legais é um caminho promissor para normalizar absurdos num país de profundas injustiças sociais. Quantos destes privilegiados bradam enfurecidos e eivados dos mais altos princípios do liberalismo contra qualquer tipo de políticas sociais, consideradas um atentado contra a igualdade e a meritocracia?
A nova idade média
Há um evidente retrocesso mental no Brasil, e isto pode ser claramente observado nos discursos conservadores, racistas, sexistas e homofóbicos repercutidos irresponsavelmente por parte significativa dos líderes políticos evangélicos que pululam na política brasileira. E alguns partidos, sem grandes escrúpulos, amealham estes políticos angelicais, pois que engordam seu poder plebiscitário. Poderíamos afirmar que a representação política evangélica é legítima, pois vivemos numa democracia. Mas não se trata aqui da ampliação da representação política de determinados setores sociais e sim de um oportunismo que aposta no obscurantismo, na ignorância e no retrocesso de importantes conquistas sociais, o que é nocivo à própria democracia. É bom lembrar, que o citado Eduardo Cunha é um destes líderes moralistas da bancada evangélica que proliferam o atraso e a ignorância. Mas a coisa é mais séria: a esmagadora maioria destes líderes está encrencada na justiça, e responde por crimes de peculato, furto, corrupção, abuso de poder econômico, sonegação e formação de quadrilha. 
Corrupção e golpismo

Penso que todos os políticos corruptos deste país deveriam ser julgados por um judiciário honesto e, se for o caso, superlotarem ainda mais as prisões, tradicionalmente reservadas aos pobres. É urgente que enfrentemos este problema histórico no Brasil. Contudo, o que estamos assistindo hoje é o uso malicioso da corrupção por determinados setores sociais interessados na desestabilização não apenas do governo, mas do país. Sem escrúpulos, não atacam efetivamente os corruptos da Petrobras, por exemplo, mas sim a própria estatal. E faz sentido, considerando que os corruptos envolvidos pertencem a várias siglas partidárias e não apenas as do governo. Fragilizar uma estatal do porte da Petrobrás não cheira bem e remete a interesses escusos. A grande mídia, sempre parceira destas indecências, faz eco. O que ela diz concretamente sobre o escândalo do HSBC? Quem são os empresários, políticos e partidos envolvidos neste caso? Desde quando a Petrobrás está infectada? Não se trata de combate a corrupção, evidentemente, mas do uso da frágil democracia brasileira para proliferar a lógica do golpismo. 

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