Para além do 15 de março

Publicado na Gazeta do Sul em 21-03-15

Pesquisas do Datafolha e do Instituto Index apontaram o perfil dos manifestantes do 15 de março em São Paulo e Porto Alegre, respectivamente. E, de modo geral, são manifestantes da classe média e média alta, maioria de autodeclarados brancos, com curso superior e majoritariamente eleitores derrotados nas últimas eleições. Por que é importante saber quem estava nas ruas naquele domingo? Ou ainda, quem não estava? Pois bem, em minha opinião a democracia é para todos, sem reservas, e, portanto, não podemos ignorar o fato de que uma parcela da sociedade brasileira está descontente, e é uma parcela importante politicamente e sensível às turbulências econômicas. É preciso dar ouvidos a esta parcela social que foi às ruas, observar seu discurso, identificar para onde aponta suas “armas” e até que ponto tem consciência de seu papel social e político.
No levantamento do Datafolha, em São Paulo, 82% dos manifestantes votaram em Aécio Neves, contudo somente 37% se disseram simpáticos ao PSDB. O velho personalismo político continua orientando o eleitor para o carisma pessoal e não para as ideias ou partidos. Essa postura política dos brasileiros abre caminhos para aventureiros que fazem política atacando a própria política, como fora com Collor, por exemplo. É bom lembrar que não existe discurso apolítico, existe a ignorância em relação ao próprio discurso que se repercute.
As pesquisam mostram que grande parte dos manifestantes foi às ruas protestar contra a corrupção, o que é nobre, mas contraditório, vale notar a opção por Aécio, cujos casos de corrupção já estavam circulando ainda no tempo da campanha eleitoral. Penso que a corrupção, neste caso, é um canalizador, mas infelizmente usada para embaçar a visão da sociedade sobre o real problema da corrupção. Seria bom que os manifestantes usassem o mantra anticorrupção de forma mais ampla. Onde estavam os cartazes e faixas contra o escândalo do metrô em São Paulo? Com o nome dos políticos que apareceram na lista da Operação Lava Jato, divulgada pelo STF? Com o nome dos envolvidos no escândalo do HSBC? Onde estavam as bandeiras em massa a favor da reforma política?
Outro fator não menos importante foi assistir todo o tipo de discurso preconceituoso se manifestando sem pudores, além das bizarrices como “volta da ditadura” e posturas fundamentalistas, fatores determinantes para que muitas pessoas não fossem às ruas, vale dizer. É preciso que a classe média, a grande protagonista destes movimentos, assuma responsabilidades mais altas, mais nobres e conscientes. Que escape da tentação conservadora, que não feche os olhos para os avanços sociais que já foram conquistados, que não aceite o discurso regressista que vem assolando o país, sobretudo ecoado pelo próprio Congresso Nacional. 86% dos manifestantes disseram que a democracia é o melhor dos regimes, mas precisam marcar com clareza o que os diferencia daqueles que usaram as ruas para espalhar o ódio.


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