Responsabilidade política

Publicado em 14 de março na Gazeta do Sul


Democracia exige trabalho, é preciso aprendizado, humildade, certa resignação, participação e, o que é mais importante, frustração. É preciso participação construtiva, resignação virtuosa e assimilação de derrotas, desde que elas sejam constituídas nas regras do jogo. Mas parece que estamos optando por caminhos nebulosos. O que estamos vivendo hoje é lamentável, estamos colocando três décadas de aprendizado democrático no lixo. Mesmo se considerássemos todos os erros do governo, toda a infâmia do pragmatismo duvidoso, toda a corrupção que rondou e ronda a administração central (sem contar as regionais e municipais, geralmente silenciadas), nada justificaria assaltar a democracia e lançar mão de intervenções golpistas. Burlar as regras do jogo e apostar na exceção custará muito caro, mesmo aos incautos que fervorosamente apostam suas fichas em regimes de exceção. E estaremos onerando, certamente, mais de uma geração. Nada justifica uma atitude irresponsável como esta.
É lamentável o uso que estamos fazendo da corrupção neste processo de destituição das regras do jogo (vide 1954 e 1964). Estamos entendendo a corrupção como uma ação voluntária de agentes públicos, políticos e empresários associados a esses agentes. Pessoas corruptas, vale dizer. Mas jamais podemos pensar numa solução para a corrupção apostando na honestidade das pessoas! Isto é ingenuidade e desconhecimento! Não são as pessoas que devem ser o alvo da vigilância e sim o sistema político e administrativo. A reforma política, por exemplo, é um instrumento que pode ser usado para evitar parte da corrupção. É preciso observar quem a apoiará. É ela que é o instrumento fundamental, do contrário não avançaremos em nada. Na mesma direção, a reforma da política de concessão dos meios de comunicação. Ela ampliaria o controle social e a democratização da própria informação, o que significaria mais qualidade e confiabilidade. Quem não desejaria isso? A corrupção está sendo usada como areia nos olhos, uma forma de cegar para o que de fato está se instituindo. A julgar pelo que se diz na imprensa e nas redes sociais, onde as coisas de fato repercutem na atualidade, o Brasil se descobriu invadido por corruptos. Mas isso com 500 anos de atraso? Temos que ser responsáveis. É preciso acabar com a corrupção, mas não com a democracia.
Em nome do combate à corrupção não podemos aceitar retrocessos. Não podemos aceitar a naturalização das desigualdades sociais e o uso falastrão da meritocracia, um discurso que serve bem para tornar nebulosa nossas formas de usufruir de privilégios. É preciso que sejamos fortes, conscientes de nossa força política e senso de cidadania. Não podemos nos sujeitar à miséria do retrocesso político. A democracia é imperfeita, mas ainda é o menos pior dos regimes. É bom lembrar que é só porque vivemos numa democracia que podemos nos manifestar e protestar publicamente, e se sabemos da corrupção é porque ela pode ser divulgada.

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