Sociedade e Intolerância

Publicado na Gazeta do Sul em 07 de março de 2015

Vivemos, desde o período eleitoral, um “debate” eivado de ódios, sobretudo nas redes sociais, veículo por excelência onde todos podem despejar o que bem entendem. E como todo espaço onde podemos assinar frases, textos e ideias sem grandes responsabilidades, a tendência é o transbordamento e o excesso. Para além do debate político, que seria ótimo, salutar e demonstração de amadurecimento de nossa cidadania, o que estamos assistindo é a construção de trincheiras, é a fixação e petrificação de ideias e a decorrente impossibilidade emocional de escutar outras opiniões contrárias a nossa. E, no andar das coisas, quando ódios e rancores começam a orquestrar os “debates”, ou melhor, os “enfrentamentos”, passamos a fazer da discussão política uma extensão da lógica da guerra.
A pobreza das ideias explicitadas nas redes sociais não revela apenas a nossa profunda ignorância, mas nossa maledicência, preconceitos, racismos, incapacidade de vida política e, lamentavelmente, nossa total intolerância. Demos de ombro às regras do jogo democrático. Lançamos mão de ideias estapafúrdias, como a defesa da volta da ditadura, por exemplo. Ideias como essa nos apontam para uma atrofia do pensamento histórico, para uma precarização da memória e, o que é pior, o quanto somos incapazes de exercer nossa cidadania dentro das regas democráticas, com liberdade e responsabilidade política. Esta semana foi viral na internet a postagem que apresenta descerebrados com um cartaz dizendo: “intervenção militar já, só o povo nas ruas tem poder” (povo nas ruas e ditadura?). Ignorância tem preço alto, mas orgulho da própria ignorância é impagável. Defender regimes de exceção é declaração pública de preguiça mental, de falta de argumentação e conhecimento, além, é claro, de falta de decência e respeito pelas vítimas do passado recente. Estas posturas eliminam qualquer possibilidade de discussão e mesmo de confronto de ideias.

Estes enfrentamentos belicistas, que abandonam a razão e lançam mão do arsenal da estupidez, levam à cegueira completa do quadro político que vivemos. Um ambiente propício à manipulação midiática, que deita e rola, de raposas econômicas que ficam a espreita do galinheiro público, de políticos oportunistas que ajudam a plantar o caos, entre outros que irresponsavelmente estão empurrando o país para à violência e desestruturação. A grande maioria perde com isso, mas alguns ganham, sempre! É preciso estar atento a estes que se nutrem do caos social e econômico. Como disse Eliane Brum: "Nas postagens e comentários das redes sociais, seus autores deixam claro o orgulho do seu ódio e muitas vezes também da sua ignorância. Com frequência reivindicam uma condição de “cidadãos de bem” como justificativa para cometer todo o tipo de maldade, assim como para exercer com desenvoltura seu racismo, sua coleção de preconceitos e sua abissal intolerância com qualquer diferença." Infelizmente vivemos um retrocesso mental como a muito não víamos.

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