Meus cartazes

Publicado dia 12 de abril na Gazeta do Sul

Domingo, dia 12, teremos o repeteco das manifestações moralizantes no país. Nada como viver em democracia. Penso que do 15 de março pra cá muita coisa aconteceu, sobretudo no que diz respeito ao alargamento do horizonte da corrupção. Já não é possível relacionar de forma tão simplista a corrupção ao PT ou ao governo. As coisas são mais complexas. Não dá para cair no conto do vigário assim tão inocentemente. Se queremos combater a corrupção, inclusive a protagonizada pelos quadros do PT e do governo, temos que ter coerência, responsabilidade e discernimento do uso político que se pode fazer com a ideia de corrupção.
De 15 de março a 12 de abril tivemos acesso a outras tantas informações importantes: o maior rombo ao erário público advém da sonegação, que é a forma cafajeste da corrupção. Pois bem, a corrupção é algo que precisa ser considerada “lato sensu” no Brasil. E, em que pese a cultura da malandragem, que nos inocenta de nossas pequenas corrupções cotidianas e não faz muita distinção de classe, é preciso afirmar que sonegação, de fato, não é coisa de quem recebe bolsa família. É bom lembrar que o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz) aponta que “a sonegação no Brasil é 20 vezes maior do que o valor gasto com o Programa Bolsa Família”.
Estima-se que uma média de 500 bilhões de reais por ano é surrupiada do erário público pelas “zelites”, enquanto que a corrupção, efetivamente como a conhecemos, corresponde a uma média de 67 bilhões. Bem, isso significa que precisamos focar nossas lentes aos sonegadores também. Precisamos unir forças contra todo o tipo de corrupção, sem restrições ou seletividades. A operação Zelotes nos oferece bons casos que deverão ser investigados, a exemplo da grande empresa de comunicação do Sul do país. Por dever de consciência, devemos protestar e levantar cartazes contra esta empresa bem como contra os políticos e não-políticos que estão sob investigação no escândalo do HSBC. Estes cartazes não podem faltar, para manter a coerência!
Duas outras indignidades que estamos assistindo nas últimas semanas e que mereceriam cartazes e brados furiosos vieram do Congresso Nacional. A primeira delas diz respeito a PEC 171, que na contramão da civilização, intenta diminuir a maioridade penal no Brasil. Somando-se a este descalabro temos a aprovação inicial do texto sobre a PL da terceirização. Trata-se de uma medida que, segundo especialistas, representa o maior atentado contra o trabalhador brasileiro das últimas décadas. O sociólogo Ruy Braga, em entrevista a Carta Capital, estima que 18 milhões de brasileiros, caso aprovada na integralidade a PL, terão seus salários diminuídos em média 30%. Há um evidente aproveitamento do cenário político para tantas propostas draconianas. Para Braga, ao deixar passar livre a PL 4330, o governo “Dilma está terceirizando seu mandato”. Não deixa de ter razão. É preciso que a sociedade não permita que sua consciência seja terceirizada também.


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