Um debate necessário (I)

Publicado dia 23 de maio na Gazeta do Sul



Nesta semana, e na próxima, trago ao leitor uma entrevista com Carlos Henrique Armani, doutor e pós-doutor em História das ideias e chefe do Departamento de História da UFSM.
1)                 Como avalia este movimento conservador que estamos vivendo no Brasil Hoje?
Entendo que o movimento conservador deve ser entendido, em parte, como resposta ao problema da representação política, especialmente do Legislativo, que o Brasil vive. Muitas respostas às crises de representação política se manifestam por meio de uma pretensa substituição da representação pela ideia de encarnação da nação. Uma parte desse movimento conservador pretende, em nome desta encarnação da nação, substituir aquilo que supostamente não os representa, por uma figura que possa consubstanciar seus interesses, que se confundiriam com os interesses nacionais. Por outro lado, vejo nas reações conservadores, diga-se de passagem, bastante difusas, uma forma de atacar especificamente um partido com tradição de esquerda e que está no poder. Antes de um programa específico de governo, o movimento conservador que se apresenta no Brasil é anti-petista. Ele somente é algo consistente a partir do que ele nega. Se tirarmos sua negação, sobra pouca coisa.
2)                 Há um claro movimento de descredibilização das esquerdas no Brasil em função da crise política do PT. Até que ponto é necessário separar as coisas? O que resta da esquerda hoje?
É difícil responder a essa questão. Talvez o que sobre da esquerda hoje seja a necessidade de sua autonomia em relação aos governos, sobretudo, por meio da adesão radical a pautas políticas progressistas, como desenvolvimento social, políticas pró-ativas de reconhecimento efetivo das diferenças, fortalecimento da representação política, distribuição mais justa da justiça (democratização do judiciário), diminuição da brutal diferença social, atendimento às demandas de moradia e de dignidade mínima de existência humana, luta efetiva por um Estado laico, entre outras. Embora o PT tenha sido, durante alguns anos, um dos maiores, se não o maior referencial da esquerda brasileira, de certo modo, sua procura por ascensão e chegada ao poder o levou a alianças com grupos altamente conservadores da sociedade brasileira. O PT, ainda assim, conseguiu trazer avanços para a sociedade brasileira, sobretudo ao tirar o Brasil do mapa da fome. Contudo, os escândalos de corrupção, bem como a política governista que rege o PT atualmente contribuem para sua perda de credibilidade e de identidade como partido de esquerda. Talvez esse seja um problema das esquerdas de um modo geral, pois dificilmente a esquerda escapa de pautas liberais. Digo das pautas de um liberalismo econômico conservador, na linha dos monetaristas, não em uma perspectiva de reconhecimento radical de diferenças individuais (ou individuais-coletivas), em que o liberalismo é quase uma política libertária.

Homo Economicus

Publicado em 16 de maio na Gazeta do Sul

Vivemos num mundo em que cada vez mais somos capturados pelas demandas do mercado. Fizemos deste não apenas um meio pra vida, um “modus operandis” da dinâmica econômica, mas investimos a própria vida por esta dinâmica que tende, cada vez mais, a superocupar nossa existência. A vida se tornou um elo da produtividade. Pensamos o mundo a partir da forma como nos encaixamos nesse modelo de existência, tendente, “ad nauseam, a nos transformar em empreendedores de si. Somos pequenas ofertas econômicas a disposição do mercado. Nossa vida passou a ser norteada pela lógica das corporações. Bovinamente nos preparamos para elas. Desejamos isso. Esta é a grande “virtude” do sistema. Transformar nossos projetos de vida, nossa aptidões, nossa determinação, nossa vitalidade e desejos em força produtiva. Trata-se, a bem da verdade, da constituição do “homo economicus”, potência vital docilizada, maximização produtiva que se rende à lógica corporativa e competitiva. Que aceita de bom grado o que outrora seria motivo de desespero. Como diz Trent H. Hamann, “o ethosneoliberal opera em quase todos os aspectos da nossa vida individual e social”. Para este autor norte-americano, professor da Universidade St. John, em Nova Iorque, “enquanto o liberalismo situa o ‘homem econômico’ como um ‘homem de troca’, o neoliberalismo se esforça em assegurar que os indivíduos sejam obrigados a assumir valores baseados no mercado em ‘todos’ os seus julgamentos e práticas para reunir quantidade suficiente de ‘capital humano’ e assim tornarem-se ‘empreendedores de si’”. É por isso que toda a potência vital, toda a força que temos é dedicada ao mercado, à produtividade e à lógica corporativa. Trabalhamos sobre nós mesmos para nos tornarmos sujeitados, responsabilizados, individualizados e defensores destes mesmos discursos que nos constituem. A grande sacada do neoliberalismo foi essa: não apenas agir sobre as condutas, mas sobre os desejos, sobre a vida em sua totalidade. Não é sem sentido que a esfera privada (o lar ou ambiente familiar), se tornou também ambiente de trabalho e consumo, ambiente de telemarketing e tecnomercadológico. Hamann chama a atenção que “problemas antes considerados mazelas sociais transferiram-se para o domínio pessoal: pobreza, degradação ambiental, desemprego, falta de moradia, racismo, sexismo e heterossexismo: todos foram reinterpretados como questões privadas que deveriam ser atendidas pela caridade voluntária, pela mão invisível do mercado, pelo cultivo de ‘sensibilidades’ pessoais em relação aos outros ou fortalecendo a própria autoestima”. Além de (hiper)responsabilizar o indivíduo, até porque a lógica é individualista mesmo, o que se faz é destruir e fragilizar a ideia de estabilidade e segurança, que passam à alçada privada. Voluntariamente, estamos defendendo e desejando tudo isso, porque é de desejo e sedução que se trata. 


Foucault e o Index

Publicado na Gazeta do Sul em 09 de maio de 2015



Que muitas religiões são, também, protagonistas ferrenhas de violência, ódios e guerras, todo mundo sabe, basta uma rápida olhadela na História e um breve passeio pelo tempo presente que isto salta aos olhos, e ao “espírito”. E entenda-se a violência de modo lato, bem entendido. A Igreja Católica foi a grande censora da Idade Média e seu poder, mesmo que decadente, se estendeu até o século XIX. Tempo suficiente para demonstrações constrangedoras de autoritarismo e censura ao conhecimento e à emancipação humana. Exemplos desta conduta retrógrada temos no famoso “Index Librorum Prohibitorum” (índice dos livros proibidos), promulgado pelo Papa Paulo IV, em 1559, que em nome da contra-reforma fez brotar e cultivar a ignorância por séculos. Para se ter uma ideia, o Index só foi revogado em 1966, pelo Papa Paulo VI. Pelo Index já andaram intelectuais e cientistas da envergadura de Galileu, Giordano Bruno (queimado pela Inquisição), Rousseau e Kant, entre tantos outros. Não bastasse a onda fundamentalista de determinados grupos evangélicos, sobretudo aqueles representados por pastores como Feliciano, que vêm provocando um regresso atrás do outro, a Igreja Católica resolve, na contramão do que anunciava o novo papado de Francisco, jogar contra o conhecimento e o pensamento. Trata-se da decisão do Conselho Superior da Fundação SP, mantenedora da PUC-SP, em negar a criação da Cátedra Michel Foucault, que honraria o acordo entre a PUC, o Consulado Francês e o Collège de France. O Collège de France é instituição de Ensino Superior onde o filósofo Michel Foucault proferiu suas aulas mais importantes, registradas em numerosas gravações captadas por seus alunos e ouvintes entre 1971 e 1984. Segundo o acordo, a PUC-SP seria a primeira instituição fora da Europa a receber da “Bibliothèque Générale du Collège de France” os áudios originais das aulas do filósofo, o que ocorreu em 2011, e em contrapartida deveria criar a Cátedra Michel Foucault, iniciativa que consagraria a PUC-SP como referência nacional e internacional sobre a obra do autor de “História da Loucura”, “Vigiar e Punir”, “As Palavras e as Coisas” e “História da Sexualidade”, entre outras.
A criação da Cátedra foi aprovada pela comunidade universitária (CONSUN) em julho de 2014, contudo, ao ser apresentada ao Conselho Superior, formado por 7 bispos e a reitoria, recebeu parecer contrário. A “justificativa” aponta para a obscuridade: o pensamento de Michel Foucault é contrário aos preceitos da Igreja Católica. Ao censurar a pesquisa acadêmica por motivos tão mesquinhos, o Conselho dá provas do regresso acadêmico da PUC-SP, que, vale lembrar, já desempenhou papel importante na resistência ao regime militar, se constituindo num centro de referência intelectual nos anos 1970.  Hoje, lança mão da censura e coloca o pensamento de Foucault no “Index”, o que levará, tudo indica, à devolução dos áudios. Será uma vitória do moralismo piegas e do obscurantismo.

Tempos esquizofrênicos

Publicado na Gazeta do Sul, em 02-05-15





Vivemos tempos nebulosos, de inversão do pensamento e do bom senso! Volta e meia signatários do pensamento conservador e reacionário apontam que nos últimos anos assistimos a incitação à divisão e ao ódio no país. No caso, ódio racial e de classe, de pobres contra ricos e negros contra brancos. Segundo opinião destes próceres do pensamento de caranguejo, o Brasil não seria um país racista e nem as desigualdades sociais seriam um problema antigo, são coisas inventadas recentemente para incendiar a vida “ordeira” e “pacífica” da população. Delírios a parte, é bom lembrar que em sociedades como a brasileira, marcada por elites retrógradas e escravistas, a divisão e os abismos sociais são estruturantes. É de bom tom, e manda a civilização, não só admitir, mas combater todas as formas de racismo e não negá-lo, como se fosse coisa do mundo dos outros. O racismo no Brasil é evidente, provado e contundente, com marcas profundas no acesso a direitos e à dignidade, da mesma maneira que as desigualdades dizem respeito a lógicas sociais e econômicas que, desde a formação inicial do país, hierarquizam a sociedade e estabelecem fronteiras e barreiras que dificultam a mobilidade social. Qualquer pesquisa sociológica mostra isso, e não é de agora. Estes fenômenos não são recentes, o que talvez seja recente, e isso sim causa o grande medo em nossas elites palacianas, é a tomada de consciência destes fenômenos. É muito confortável brincar de meritocracia e de liberalismo econômico quando as condições de partida são ignoradas. É confortável uma narrativa que nega a desigualdade e o racismo, como se fossem criações sociológicas e históricas abstratas, pois estas narrativas funcionam como amortecedores sociais e garantem que os privilégios sejam mantidos.
O discurso de ódio, de fato, mostra sua verdadeira face não na explicitação da óbvia lógica de exclusão social que vivemos, mas em propostas como as que estamos assistindo nas últimas semanas, entre elas a PL da terceirização, a proposta de diminuição da maioridade penal, a revogação da política de desarmamento, a mudança da definição de trabalho escravo no Código Penal, e outras mais. É impressionante a lógica destes congressistas, a maioria deles pertencentes à bancada BBB: Bala, Boi e Bíblia. Qual o resultado lógico quando se precariza o trabalho ao mesmo tempo em que se arma a população, se vulnerabiliza os jovens e se ataca os direitos humanos? Violência. O que estamos construindo no Brasil é uma lógica da violência legalizada, instituída visceralmente na estrutura social. São tempos esquizofrênicos os que estamos vivendo no Brasil. O lamentável é o silêncio daqueles que protestam em nome da justiça e da moral. Parafraseando Zigmunt Bauman, o caminho para o holocausto pode ter sido construído pelo ódio, mas foi pavimentado pelo silêncio dos ditos “homens bons”.