Foucault e o Index

Publicado na Gazeta do Sul em 09 de maio de 2015



Que muitas religiões são, também, protagonistas ferrenhas de violência, ódios e guerras, todo mundo sabe, basta uma rápida olhadela na História e um breve passeio pelo tempo presente que isto salta aos olhos, e ao “espírito”. E entenda-se a violência de modo lato, bem entendido. A Igreja Católica foi a grande censora da Idade Média e seu poder, mesmo que decadente, se estendeu até o século XIX. Tempo suficiente para demonstrações constrangedoras de autoritarismo e censura ao conhecimento e à emancipação humana. Exemplos desta conduta retrógrada temos no famoso “Index Librorum Prohibitorum” (índice dos livros proibidos), promulgado pelo Papa Paulo IV, em 1559, que em nome da contra-reforma fez brotar e cultivar a ignorância por séculos. Para se ter uma ideia, o Index só foi revogado em 1966, pelo Papa Paulo VI. Pelo Index já andaram intelectuais e cientistas da envergadura de Galileu, Giordano Bruno (queimado pela Inquisição), Rousseau e Kant, entre tantos outros. Não bastasse a onda fundamentalista de determinados grupos evangélicos, sobretudo aqueles representados por pastores como Feliciano, que vêm provocando um regresso atrás do outro, a Igreja Católica resolve, na contramão do que anunciava o novo papado de Francisco, jogar contra o conhecimento e o pensamento. Trata-se da decisão do Conselho Superior da Fundação SP, mantenedora da PUC-SP, em negar a criação da Cátedra Michel Foucault, que honraria o acordo entre a PUC, o Consulado Francês e o Collège de France. O Collège de France é instituição de Ensino Superior onde o filósofo Michel Foucault proferiu suas aulas mais importantes, registradas em numerosas gravações captadas por seus alunos e ouvintes entre 1971 e 1984. Segundo o acordo, a PUC-SP seria a primeira instituição fora da Europa a receber da “Bibliothèque Générale du Collège de France” os áudios originais das aulas do filósofo, o que ocorreu em 2011, e em contrapartida deveria criar a Cátedra Michel Foucault, iniciativa que consagraria a PUC-SP como referência nacional e internacional sobre a obra do autor de “História da Loucura”, “Vigiar e Punir”, “As Palavras e as Coisas” e “História da Sexualidade”, entre outras.
A criação da Cátedra foi aprovada pela comunidade universitária (CONSUN) em julho de 2014, contudo, ao ser apresentada ao Conselho Superior, formado por 7 bispos e a reitoria, recebeu parecer contrário. A “justificativa” aponta para a obscuridade: o pensamento de Michel Foucault é contrário aos preceitos da Igreja Católica. Ao censurar a pesquisa acadêmica por motivos tão mesquinhos, o Conselho dá provas do regresso acadêmico da PUC-SP, que, vale lembrar, já desempenhou papel importante na resistência ao regime militar, se constituindo num centro de referência intelectual nos anos 1970.  Hoje, lança mão da censura e coloca o pensamento de Foucault no “Index”, o que levará, tudo indica, à devolução dos áudios. Será uma vitória do moralismo piegas e do obscurantismo.

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