Homo Economicus

Publicado em 16 de maio na Gazeta do Sul

Vivemos num mundo em que cada vez mais somos capturados pelas demandas do mercado. Fizemos deste não apenas um meio pra vida, um “modus operandis” da dinâmica econômica, mas investimos a própria vida por esta dinâmica que tende, cada vez mais, a superocupar nossa existência. A vida se tornou um elo da produtividade. Pensamos o mundo a partir da forma como nos encaixamos nesse modelo de existência, tendente, “ad nauseam, a nos transformar em empreendedores de si. Somos pequenas ofertas econômicas a disposição do mercado. Nossa vida passou a ser norteada pela lógica das corporações. Bovinamente nos preparamos para elas. Desejamos isso. Esta é a grande “virtude” do sistema. Transformar nossos projetos de vida, nossa aptidões, nossa determinação, nossa vitalidade e desejos em força produtiva. Trata-se, a bem da verdade, da constituição do “homo economicus”, potência vital docilizada, maximização produtiva que se rende à lógica corporativa e competitiva. Que aceita de bom grado o que outrora seria motivo de desespero. Como diz Trent H. Hamann, “o ethosneoliberal opera em quase todos os aspectos da nossa vida individual e social”. Para este autor norte-americano, professor da Universidade St. John, em Nova Iorque, “enquanto o liberalismo situa o ‘homem econômico’ como um ‘homem de troca’, o neoliberalismo se esforça em assegurar que os indivíduos sejam obrigados a assumir valores baseados no mercado em ‘todos’ os seus julgamentos e práticas para reunir quantidade suficiente de ‘capital humano’ e assim tornarem-se ‘empreendedores de si’”. É por isso que toda a potência vital, toda a força que temos é dedicada ao mercado, à produtividade e à lógica corporativa. Trabalhamos sobre nós mesmos para nos tornarmos sujeitados, responsabilizados, individualizados e defensores destes mesmos discursos que nos constituem. A grande sacada do neoliberalismo foi essa: não apenas agir sobre as condutas, mas sobre os desejos, sobre a vida em sua totalidade. Não é sem sentido que a esfera privada (o lar ou ambiente familiar), se tornou também ambiente de trabalho e consumo, ambiente de telemarketing e tecnomercadológico. Hamann chama a atenção que “problemas antes considerados mazelas sociais transferiram-se para o domínio pessoal: pobreza, degradação ambiental, desemprego, falta de moradia, racismo, sexismo e heterossexismo: todos foram reinterpretados como questões privadas que deveriam ser atendidas pela caridade voluntária, pela mão invisível do mercado, pelo cultivo de ‘sensibilidades’ pessoais em relação aos outros ou fortalecendo a própria autoestima”. Além de (hiper)responsabilizar o indivíduo, até porque a lógica é individualista mesmo, o que se faz é destruir e fragilizar a ideia de estabilidade e segurança, que passam à alçada privada. Voluntariamente, estamos defendendo e desejando tudo isso, porque é de desejo e sedução que se trata. 


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