Tempos esquizofrênicos

Publicado na Gazeta do Sul, em 02-05-15





Vivemos tempos nebulosos, de inversão do pensamento e do bom senso! Volta e meia signatários do pensamento conservador e reacionário apontam que nos últimos anos assistimos a incitação à divisão e ao ódio no país. No caso, ódio racial e de classe, de pobres contra ricos e negros contra brancos. Segundo opinião destes próceres do pensamento de caranguejo, o Brasil não seria um país racista e nem as desigualdades sociais seriam um problema antigo, são coisas inventadas recentemente para incendiar a vida “ordeira” e “pacífica” da população. Delírios a parte, é bom lembrar que em sociedades como a brasileira, marcada por elites retrógradas e escravistas, a divisão e os abismos sociais são estruturantes. É de bom tom, e manda a civilização, não só admitir, mas combater todas as formas de racismo e não negá-lo, como se fosse coisa do mundo dos outros. O racismo no Brasil é evidente, provado e contundente, com marcas profundas no acesso a direitos e à dignidade, da mesma maneira que as desigualdades dizem respeito a lógicas sociais e econômicas que, desde a formação inicial do país, hierarquizam a sociedade e estabelecem fronteiras e barreiras que dificultam a mobilidade social. Qualquer pesquisa sociológica mostra isso, e não é de agora. Estes fenômenos não são recentes, o que talvez seja recente, e isso sim causa o grande medo em nossas elites palacianas, é a tomada de consciência destes fenômenos. É muito confortável brincar de meritocracia e de liberalismo econômico quando as condições de partida são ignoradas. É confortável uma narrativa que nega a desigualdade e o racismo, como se fossem criações sociológicas e históricas abstratas, pois estas narrativas funcionam como amortecedores sociais e garantem que os privilégios sejam mantidos.
O discurso de ódio, de fato, mostra sua verdadeira face não na explicitação da óbvia lógica de exclusão social que vivemos, mas em propostas como as que estamos assistindo nas últimas semanas, entre elas a PL da terceirização, a proposta de diminuição da maioridade penal, a revogação da política de desarmamento, a mudança da definição de trabalho escravo no Código Penal, e outras mais. É impressionante a lógica destes congressistas, a maioria deles pertencentes à bancada BBB: Bala, Boi e Bíblia. Qual o resultado lógico quando se precariza o trabalho ao mesmo tempo em que se arma a população, se vulnerabiliza os jovens e se ataca os direitos humanos? Violência. O que estamos construindo no Brasil é uma lógica da violência legalizada, instituída visceralmente na estrutura social. São tempos esquizofrênicos os que estamos vivendo no Brasil. O lamentável é o silêncio daqueles que protestam em nome da justiça e da moral. Parafraseando Zigmunt Bauman, o caminho para o holocausto pode ter sido construído pelo ódio, mas foi pavimentado pelo silêncio dos ditos “homens bons”.

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