Discurso de ódio e racismo

Publicado dia 13 de junho na Gazeta do Sul




Estamos tão acostumados a legitimar um certo tipo de narrativa identitária que nos constitui como uma nação sem racismo que ficamos absolutamente cegos ao evidente e palpável. Contudo, nos últimos tempos, tempos de um neoconservadorismo cujas metástases já são percebidas em vários setores em nossa sociedade, o racismo não só ficou explícito como tem se afirmado despudoradamente. Sempre foi muito confortável para as “zelites” brasileiras manter esta narrativa de um país livre do racismo, até porque com ela se mantinham privilégios e hierarquias sociais fundamentais para naturalizar as desigualdades. É ótimo não precisar assumir o racismo num país em que as universidades, sobretudo as públicas, os bons hospitais e os bons empregos são majoritariamente espaços de exclusão para não-brancos. Evidentemente isso não significa dizer que não-brancos não possam participar da festa, claro que sim, e quando alguns conseguem, “bingo”, podemos lançar mão da meritocracia e bradar a todos como o esforço individual vale a pena, ou seja, a igualdade está logo ali, só não vê quem não quer ou não se esforça o suficiente. A lógica deste raciocínio, típico da Casa-Grande, é clara.
Muito bem, para além do que é notório na miudez do cotidiano, destacamos dois casos hiperbólicos que marcaram tristemente a semana.
As manifestações racistas sobre a imigração de haitianos pululam na imprensa e nas redes socais. Um país como o Brasil, feito a base de imigrações, lançar mão de discursos xenófobos, é no mínimo incoerente. É evidente que se a imigração fosse de europeus não teríamos este desfile de barbaridades que são alardeadas sem pudor algum. O momento áureo destes absurdos foi o vídeo gravado por um sujeito vestido de policial onde se mostra orgulhoso de seu nacionalismo brega tripudiando um trabalhador/frentista haitiano. Interessante como as pessoas saem em defesa do trabalhador nacional quando se está frente a questões de imigração.
O segundo caso é típico da virulência de haters que disseminam ódio e preconceito nas redes sociais. Desta vez a vítima foi o ator mirim da novela Chiquititas, Kaik Pereira, de 12 anos. O “hater” chamou o menino de “macaco”, “preto safado”, “nojento” e “imundo”, além de dizer que o menino deve ter inveja de seus cabelos louros e olhos azuis bem como afirmar que Kaik “tem que morrer queimado”. A violência e a crueldade são amplificadas pelo anonimato, mas traduz, de certo modo, o que se ouve em muitos espaços privados e, não raro mais, em espaços públicos, como nos estádios de futebol.
O racismo brasileiro, comumente velado e escorregadio, que se mostra mais facilmente nas brincadeiras, piadas e estatísticas de saúde, educação e bem estar-social, está assumindo outra forma com o advento das redes sociais. O escritor Humberto Eco afirmou esta semana que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. É nas redes sociais, também, que muitos cidadãos “ditos de bem” perdem seu pudor.

Hipocrisias

Publicado dia 05 de junho na Gazeta do Sul




Nestes tempos moralistas e piegas, em que se alardeiam palavras de ordem e clichês bíblicos para defender ideias preconceituosas e medidas draconianas, é preciso insistir no pensamento crítico. Trago três assuntos da semana que merecem reflexão:
1. Corrupção. Como acontece com o racismo, entre nós, brasileiros, corruptos são os outros. Mas as coisas não são tão simples. Tentar dividir o mundo entre as “pessoas de bem” e as “do mal” é uma bobagem. Na mesma medida, individualizar a corrupção como escorregada de fulano ou ciclano (ou de partido X ou Y), negando as questões estruturais do fenômeno, é mecanismo de defesa hipócrita. Pois bem, um estudo realizado junto aos alunos das prestigiadas universidades de Harvard e de Duke, nos EUA, mostrou que a maioria das pessoas comete atos desonestos quando avalia que o mesmo não será descoberto ou não trará prejuízo a sua imagem ou pelo menos o prejuízo é pequeno para sua reputação. A pesquisa mostra ainda, segundo o colunista de Carta Capital, Riad Younes, que “elas têm a tendência de roubar mais, quando alguém de seu “time”, grupo, partido, está roubando, de que quando alguém do “outro” time ou partido for, obviamente, identificado como corrupto”.
2. Domingo passado, um jornal da capital, publicou o comentário de um leitor referente à imigração de haitianos para o Rio Grande do Sul que é um libelo ao racismo e muito esclarecedor de como funciona o discurso preconceituoso no Brasil. O texto circulou pelas redes sociais e mereceu críticas em vários meios de comunicação, e não é pra menos. Mentes racistas produzem raciocínios distorcidos e procuram sempre uma base para apoiar sua irracionalidade. Para demonstrar sua “tese” segundo a qual pessoas sem formação profissional ou cultural (como haitianos, senegaleses e outros similares) “tem uma tendência natural de caírem para o lado do crime”, o autor do comentário fez a seguinte afirmação: “a prova disto foram os escravos que vieram para o Brasil (negros) que chegaram sem nenhuma formação nem cultura, e proporcionalmente hoje ocupam a maioria das vagas nos presídios”. É preciso destacar que, antes de escrever seus impropérios, o autor do comentário adverte que não é racista. Claro que não! Ele deve até ter tido vários coleguinhas negros na escola (se pública, evidentemente), deve ter alguns amigos ou conhecidos negros e, quem sabe, já deve ter tido uma empregada “morena”.
3. A campanha de parte dos evangélicos contra a empresa Boticário por causa da campanha do dia dos namorados é um verdadeiro atestado de ignorância e atraso. Não bastasse a incitação ao ódio e a violência, um vídeo de Malafaia convoca o rebanho para boicotar os produtos do Boticário. Genial. Minha sugestão é que comecem fechando suas contas no Facebook e descartando seus produtos da Apple (celulares, tablets, etc), pois o presidente da Apple não apenas é gay como assinou o documento enviado a Suprema Corte Americana em apoio à união civil de pessoas do mesmo sexo.