Hipocrisias

Publicado dia 05 de junho na Gazeta do Sul




Nestes tempos moralistas e piegas, em que se alardeiam palavras de ordem e clichês bíblicos para defender ideias preconceituosas e medidas draconianas, é preciso insistir no pensamento crítico. Trago três assuntos da semana que merecem reflexão:
1. Corrupção. Como acontece com o racismo, entre nós, brasileiros, corruptos são os outros. Mas as coisas não são tão simples. Tentar dividir o mundo entre as “pessoas de bem” e as “do mal” é uma bobagem. Na mesma medida, individualizar a corrupção como escorregada de fulano ou ciclano (ou de partido X ou Y), negando as questões estruturais do fenômeno, é mecanismo de defesa hipócrita. Pois bem, um estudo realizado junto aos alunos das prestigiadas universidades de Harvard e de Duke, nos EUA, mostrou que a maioria das pessoas comete atos desonestos quando avalia que o mesmo não será descoberto ou não trará prejuízo a sua imagem ou pelo menos o prejuízo é pequeno para sua reputação. A pesquisa mostra ainda, segundo o colunista de Carta Capital, Riad Younes, que “elas têm a tendência de roubar mais, quando alguém de seu “time”, grupo, partido, está roubando, de que quando alguém do “outro” time ou partido for, obviamente, identificado como corrupto”.
2. Domingo passado, um jornal da capital, publicou o comentário de um leitor referente à imigração de haitianos para o Rio Grande do Sul que é um libelo ao racismo e muito esclarecedor de como funciona o discurso preconceituoso no Brasil. O texto circulou pelas redes sociais e mereceu críticas em vários meios de comunicação, e não é pra menos. Mentes racistas produzem raciocínios distorcidos e procuram sempre uma base para apoiar sua irracionalidade. Para demonstrar sua “tese” segundo a qual pessoas sem formação profissional ou cultural (como haitianos, senegaleses e outros similares) “tem uma tendência natural de caírem para o lado do crime”, o autor do comentário fez a seguinte afirmação: “a prova disto foram os escravos que vieram para o Brasil (negros) que chegaram sem nenhuma formação nem cultura, e proporcionalmente hoje ocupam a maioria das vagas nos presídios”. É preciso destacar que, antes de escrever seus impropérios, o autor do comentário adverte que não é racista. Claro que não! Ele deve até ter tido vários coleguinhas negros na escola (se pública, evidentemente), deve ter alguns amigos ou conhecidos negros e, quem sabe, já deve ter tido uma empregada “morena”.
3. A campanha de parte dos evangélicos contra a empresa Boticário por causa da campanha do dia dos namorados é um verdadeiro atestado de ignorância e atraso. Não bastasse a incitação ao ódio e a violência, um vídeo de Malafaia convoca o rebanho para boicotar os produtos do Boticário. Genial. Minha sugestão é que comecem fechando suas contas no Facebook e descartando seus produtos da Apple (celulares, tablets, etc), pois o presidente da Apple não apenas é gay como assinou o documento enviado a Suprema Corte Americana em apoio à união civil de pessoas do mesmo sexo.

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