Liberalismo e Neoliberalismo (partes I e II)

Publicado nos dias 27 de junho e 04 de julho de 2015 na Gazeta do Sul



Liberalismo e neoliberalismo
Qual a diferença entre liberalismo e neoliberalismo? É ao estabelecermos as diferenças entre estas posturas doutrinárias ou teóricas que possibilitamos um melhor entendimento de como as sociedades contemporâneas vêm se constituindo. A pergunta melhor colocada seria: qual a singularidade do neoliberalismo? Não se trata apenas de entendê-lo como uma expansão do liberalismo, sua maturidade ou consequência natural. Em primeiro lugar, para entendê-lo temos que nos livrar da tendência de considerá-lo como conservador ou reacionário, em que pese poder estar associado a estas posturas em conjunturas políticas estratégicas, sobretudo em se tratando de inimigos comuns a ambos. Melhor seria tentar compreendê-lo a partir da singularidade de sua racionalidade, de sua “utopia”.
Para o liberalismo clássico, aquele advindo de Adam Smith e do corolário “laissez-faire”, o que estava em jogo e o que era proposto era a limitação do Estado e a constituição de um espaço livre de restrições para o funcionamento do mercado. Melhor do que dizer limitação seria dizer separação de esferas de intervenção. Segundo Geoffroy de Lagasnerie, autor do livro “A última lição de Michel Foucault”, no liberalismo encontramos “de um lado o mercado e a racionalidade econômica e, de outro, o Estado e a racionalidade política, e todo o problema consiste em dizer ao Estado: a partir de tal limite, quando se tratar de tal questão e a partir das fronteiras de tal domínio, aí, você não intervirá mais”. A questão aqui é a delimitação de espaços de ingerências e de tipos de racionalidades. O que muda com o neoliberalismo? Muito. Não se trata mais, como no liberalismo, de estabelecer fronteiras entre a racionalidade econômica e a política e sim romper com estes limites. O que se pretende é a disseminação totalizante do mercado, submeter toda a sociedade à lógica da competividade e concorrência, que deve, neste caso, assumir a função de reguladora do social. Noutros termos, a sociedade como um todo deverá funcionar a partir da forma “competitividade-concorrência-mercado”. É por isso que cada vez mais é preciso difundir a ideia da meritocracia, da formação educacional continuada/eterna, da autoajuda e da gestão de si como se cada indivíduo fosse uma empresa. Neste sistema de concorrência e inovação constante, o emprego se insere na dinâmica do risco/imprevisibilidade. Trata-se de uma nova gestão da empregabilidade, sujeita à flexibilização e incertezas, que tem por consequência a ruptura com o devir, com o futuro. O que temos é a obesidade do presente, com seu corolário da “satisfação imediata dos desejos”. Ao contrário dos sistemas rígidos e verticalizados do fordismo-taylorismo, o que assistimos é a humanização e potencialização dos afetos, emoções, criatividades e prazeres, sempre acoplados ao mundo do trabalho. Toda esta “profunda humanização”, pode, agora, ser instrumentalizada no ciclo produtivo. 


Liberalismo e neoliberalismo II
Há uma marcante diferença entre liberalismo e neoliberalismo. Se no primeiro temos uma separação entre a racionalidade política e a racionalidade econômica, no segundo esta fronteira é esmaecida, ou seja, no neoliberalismo a racionalidade econômica tende a cobrir a totalidade da vida social. O conceito chave para entendermos esta dinâmica é o de Capital Humano, desenvolvido nos anos 1960 pelo teórico do neoliberalismo, Theodore Schultz. Em linhas gerais, o Capital Humano transforma as capacidades do indivíduo, suas características, aptidões, habilidades e competências em capital. O humano/indivíduo é considerado, portanto, um valor de mercado. E é para o mercado que ele deve se constituir como tal. O indivíduo, nesta perspectiva neoliberal, deve se ser entendido como uma “microempresa”, um empreendedor de si, um sujeito autônomo e responsável pelo valor de capital intrínseco em si. É o chamado “homo economicus”. É por isso que a educação, por exemplo, deixa de ser considerada como gasto e passa a ser percebida como um investimento. E, como tal, deve ser permanente. Fica evidente, também, o individualismo exacerbado nesta nova fase do capitalismo, ou melhor, do neoliberalismo. É o indivíduo que deve ser responsável pela sua formação, pela sua educação, pela sua saúde, pelo seu governo, pelo seu sucesso ou fracasso. Estar fora ou dentro do jogo é sua responsabilidade. É o seu mérito ou demérito que está em jogo. O indivíduo deve se perceber livre, deve governar a si mesmo, tomar decisões e fazer as melhores escolhas e estratégias para competir. Aqueles que fracassarem em prosperar sob tais condições sociais não podem culpar ninguém nem coisa alguma além de si mesmos.
O neoliberalismo inaugura uma nova fase do capitalismo, também chamado de conexionista, em rede ou cognitivo. E nesta fase, soma-se ao imperativo do capital humano, a competitividade. É a competitividade que organiza a lógica social no neoliberalismo e não mais a chamada “antropologia das trocas”. Uma sociedade-empresa é o desdobramento desta lógica. É interessante observar, entre as profundas mudanças operadas nesta sociedade-empresa que vivemos, como a produção, o trabalho e a gestão foram reorganizados. O capitalismo contemporâneo faz da criatividade, da autonomia, da mobilidade e da iniciativa uma estratégia de transferência dos processos de controle do trabalho e da produção. Mas como controlar a criatividade e a autonomia, estas coisas incontroláveis? Como aponta o filósofo Peter Pelbart: 1) fazendo com que as equipes auto-organizadas (de trabalho) se controlem a si mesmas; 2) lançando mão das noções de mobilização e prazer no trabalho, sem que nada lembre controle ou manipulação; 3) Fazer da importância da satisfação do cliente um modo de transferência de parte do controle para fora da empresa, ou seja, é o cliente que deve exercer o controle. Esta e a novidade: no neoliberalismo, governa-se tudo com menos governo possível.

Nenhum comentário: