Preconceito "Oculto"

Publicado na Gazeta do Sul em 11 de julho de 2015



É evidente que as pessoas não vivem com um tratado histórico-sociológico debaixo do braço, nem refletem sobre suas falas e ações cotidianamente. É sobre este lançar mão de experiências já automatizadas ou rotinizadas que hábitos, para o bem ou para o mal, se cristalizam e passam a constituir a tessitura da vida cotidiana. Dentre estes, muitos vícios e pequenas perversidades diárias passam despercebidos, como as expressões oriundas de relações profundamente racistas que orientam o cotidiano dos brasileiros. Trago aqui algumas destas expressões que Stephanie Ribeiro, do Blogueiras Negras, lista como aquelas que devem sair de nosso vocabulário ordinário.
Houve tempo em que dizer “trabalho é coisa de negro” apontava para a condição sócio-racial de quem trabalhava, o escravo. A partir do final do século XIX, com o fim do sistema escravista e a reestruturação da sociedade sob a égide do darwinismo social, o negro é capturado por outra lógica e passa a ser considerado um preguiçoso nato. Uma nova expressão se populariza: “amanhã é dia de branco”. Outra expressão muito comum nos nossos dias é “serviço de preto”, sinônimo de trabalho ruim ou desqualificado. É bom lembrar que a tradição escravista nos legou uma ética da desvalorização do trabalho. Legitimada pelas teses da pseudociência social-darwinista, a expressão “da cor do pecado” passou a ser usada para referir a herotização ou sexualização da “mulata” no Brasil. Nina Rodrigues, famoso médico e antropólogo da Faculdade de Medicina da Bahia, dizia, no final do século XIX: "A sensualidade do negro pode atingir então as raias das perversões sexuais mórbidas. A excitação genésica da clássica mulata brasileira não pode deixar de ser considerada um tipo anormal”. Era esta a visão da época que nos chega e compõe nosso imaginário. Ainda sob o manto do escravismo perverso, a expressão “não sou tuas negas”, traz um universo de preconceitos e estereótipos sociais arraigados. O sistema escravista fez do estupro e do abuso sexual uma regra social. Senzalas eram também haréns. “Cabelo ruim” e todos os seus derivados, apontam para a negação da estética negra, por muito tempo inculcada, inclusive pela comunidade negra. Com o movimento “Negritude” a autoimagem e a autoestima passaram a ser resignificadas, mas ainda sofremos com seus desdobramentos perversos. “Nasceu com um pé na cozinha”, famosa por ter sido utilizada pelo ex-presidente FHC, aponta para uma maneira de amenizar as distâncias sociais e raciais afirmando uma origem negra comum. Mostra, evidentemente, como o imaginário social define os espaços e os direitos sociais de raça e gênero. A mulher negra é comumente associada aos serviços domésticos. As novelas brasileiras constituem um verdadeiro manual de como naturalizar os espaços sociais de negros e brancos no Brasil.
O racismo, como estruturante, está em tudo e em todos. É preciso não apenas reconhece-lo, mas identificar por onde ele se naturaliza e invisibiliza.

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