Haitianos no Brasil

Publicado em 15 de agosto de 2015 na Gazeta do Sul

Nestes tempos de perda do pudor e da vergonha, em que discursos de ódio e preconceitos de toda ordem invadem as redes sociais, e não só elas, assistimos um país perdendo dia a dia sua capacidade, até então considerada um traço cultural, de assimilar e negociar com as diferenças. Uma sociedade que se apresentava como tolerante e não-racista, uma digníssima “democracia racial”, deixa cair a máscara e se mostra ao mundo com o que temos de mais perverso. A maneira como temos lidado, nos últimos tempos, em relação à entrada de imigrantes haitianos no Brasil é lamentável e demonstra a fragilidade de nossa “tradição” multicultural, ou melhor, intercultural. Estamos sendo confrontados com um país que cultiva ódios, dissemina violência e se desumaniza cotidianamente, mostrando, de fato, o quanto o nosso arranjo social é instável.
No dia 01 de agosto, no centro de São Paulo, seis haitianos foram baleados. Um dos atiradores teria dito às vítimas antes de atirar: “haitianos, vocês roubam os nossos empregos”. Foram dois ataques, um dos quais em frente à igreja onde funciona a Missão Paz, entidade que abriga e orienta imigrantes além de combater o trabalho escravo e o tráfico humano. Os haitianos começaram a entrar no Brasil a partir de 2010, depois que o Haiti foi praticamente destruído por um terremoto que matou mais de 300 mil pessoas e deixou outras 300 mil desabrigadas. Trata-se de uma crise humanitária. E foi com este entendimento que o Estado brasileiro passou a tratar o caso dos imigrantes haitianos, abrindo uma exceção à lei dos refugiados, concedendo-lhes visto e direitos como carteira de trabalho, passaporte e CPF.
É no mínimo contraditória, para não dizer imoral, a postura de muitos brasileiros frente à entrada dos imigrantes haitianos. Um país construído a partir de fluxos migratórios recentes como o nosso, adotar uma postura xenófoba revela o quanto estamos nos tornando intolerantes e o quanto temos uma visão distorcida dos fenômenos migratórios. Se por um lado gostamos de um proselitismo em relação aos nossos antepassados que chegaram ao país como imigrantes, por outro esbravejamos contra os imigrantes que hoje estão chegando.

A chegada dos haitianos iniciou num momento econômico e politico bem diferente do que estamos vivendo hoje. Era um momento em que experimentávamos uma ascensão social e econômica, que tínhamos, inclusive, carência de mão de obra. Contudo, mesmo naquele período de abundância de empregos manifestações xenófobas contra os haitianos já eram repercutidas, mas timidamente. Hoje a situação é diferente. Temos um ambiente não só de crise econômica, mas moral e cultural. Vivemos a ascensão da política do ódio e da intolerância. Temos um bom motivo para mobilizar nossas forças contra imigrantes que “ameaçam nossos empregos”. “Não se trata de racismo, é uma questão econômica, de empregabilidade”. Para “tirar a prova” seria interessante observar como nos comportaríamos com imigrantes escandinavos. 

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