Vidas Nuas

Publicado no jornal Gazeta dia 12 de setembro de 2015

Um menino refugiado/imigrante morto aparece no litoral da Turquia e “comove” o “mundo”, chama a atenção pra si, torna-se emblemático de uma existência cada dia mais brutal. A imagem é a da morte em sua aspereza ímpar, pois é a imagem de uma morte sem motivo aparente, do abandono completo, da solidão e da vulnerabilidade. A frágil criança morta deveria nos fazer olhar para uma multidão de “vidas nuas”, para usar a expressão do filósofo italiano Georgio Agamben, que vagam pelo planeta de campo em campo de refugiados, que transitam pelas margens do sistema e espreitam fronteiras cada dia mais cercadas e muradas, fronteiras que anunciam a inumanidade. A criança morta representa aqueles que vivem a condição da morte iminente, a condição de vivos-mortos. Aqueles que podem ser mortos a qualquer momento sem que com isso sejam considerados vítimas de assassinato. “Vidas nuas” que desprezamos e que julgamos serem vidas que não merecem ser vividas, que são redundantes e excedentes. Esta é a condição, por exemplos, dos imigrantes ilegais (e mesmo os legais) que vivem em permanente “estado de exceção”, em total vulnerabilidade, vidas que não são qualificadas e socialmente constituídas. O que nos emociona no menino do mar da Turquia é, ainda, sua singularidade. Uma única pessoa morta ainda nos reporta a uma identidade, e pode nos sensibiliza mais do que uma multidão de cadáveres. Mas por que não nos tocamos tanto, por exemplo, com as centenas ou milhares de africanos que semanalmente morrem no mar mediterrâneo, com as crianças abatidas pelos EUA no Iraque e Afeganistão (consideradas danos colaterais), nem mesmo com as muitas crianças indígenas que tombam nas mãos de madeireiros e mineradores no norte do Brasil ou mesmo com as crianças e jovens das nossas periferias assassinados diariamente por forças do próprio Estado?
Na mesma semana em que paralisamos por alguns momentos frente a esta imagem da infância morta, somos confrontados com as cenas odiosas de uma jornalista húngara (Petra László), da rede de extrema-direita “N1TV”, agredindo aos pontapés refugiados sírios, inclusive crianças. A jornalista fazia a cobertura de um evento, por si só terrível: a perseguição policial a imigrantes desesperados num campo de refugiado localizado entre a Sérvia e a Hungria. Os campos de refugiados, a cada ano multiplicados, são espaços da inexistência, do não-lugar e da inumanidade. O campo é o espaço privilegiado da vida nua. Hoje mais de 12 milhões de vivos-mortos estão sufocando nos campos espalhados pelo mundo.
São os mesmos fios que tramam a história dos refugiados agredidos pela jornalista húngara e do menino solitário que jazia abandonado no litoral da Turquia. Por um momento estas tragédias que ocorrem silenciosamente e cotidianamente nos despertam certa empatia, alguma fagulha de um envelhecido humanismo. Um breve despertar para a alteridade, provavelmente efêmero, que não resistirá a próxima “postagem”.

2 comentários:

Con.tra.pon.to disse...

Mozart, muto bom seu artigo! Parabéns por conseguir expressar um sentimento que está como um nó a garganta de tantos de nós. Abraços

Mozart Linhares da Silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.