Violência como lógica social (parte I)

Publicado na Gazeta do Sul dia 17 de outubro de 2015


As últimas declarações de Bolsonaro sobre violência, criminalidade e papel da polícia militar, demonstram o quanto estamos atrasados, sobretudo se considerarmos a significativa plateia que faz eco às suas descerebradas declarações. Segundo o parlamentar, “violência se combate com violência, e não com bandeiras de direitos humanos. Eu acho que essa Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais”. Para alguns analistas, políticos como Bolsonaro, entre outros, são representações menores, bizarrices que pouco influenciam nas discussões sobre os destinos do país. Particularmente, penso que toda declaração pública de um parlamentar, mesmo as excrescências, deve ser levada a sério. Num contexto de expansão do discurso de ódio e do despudor de posturas fascistas, declarações como as de Bolsonaro cumprem um papel importante no processo de corrosão da democracia e do Estado de Direito. Não causa espanto, nesta direção, que uma pesquisa realizada pelo Datafolha apontou que “metade do país acha que bandido bom é bandido morto” (Folha, 05/10).
Um bom documento para embasar as discussões sobre a violência como lógica social, sobretudo os papeis do Estado e da polícia na construção desta lógica social, acaba de ser publicado. Trata-se do 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Segundo o documento, somente no ano passado 398 policiais foram mortos em “combate” no país. É preciso entender que policiais são vítimas de uma lógica da violência que estrutura o próprio Estado, cuja tradição autoritária é bem conhecida. Este é o sentido da formação policial estar associada à lógica militar, ou seja, a lógica da guerra, o que em nada contribui para a segurança pública, ao contrário, amplifica a própria violência, que vitimiza também, vale dizer, a própria polícia. Como afirmam Renato Sérgio de Lima e Samira Bueno, em texto do Anuário, “Estamos diante de um ‘mata-mata’ extremamente cruel, que incentiva a ideia de policial vingador, porém não oferece aos quase 700 mil policiais nada além de uma insígnia de herói quando de suas mortes em ‘combate’”.
Considerando-se os números apresentados pelo Anuário, a polícia brasileira está a serviço de um verdadeiro genocídio. “A cada 3 horas uma pessoa foi morta pela polícia no ano passado, resultando em 3022 vítimas”. Para se ter uma ideia, segundo Renato de Lima e Samira Bueno, “o número de mortos decorrentes de intervenção policial já é a segunda causa de mortes violentas intencionais e é 46,6% superior ao número de latrocínios.  Este número representa também 37,2% de crescimento da letalidade policial em relação a 2013.
Para Pedro Abramovay “a única explicação para a aceitação de uma polícia tão letal é a visão, pelo conjunto da sociedade, de que há vidas descartáveis. E não nos iludamos, entre essas vidas descartáveis estão os 398 policiais mortos em 2014”. Por que somos indiferentes estes números/pessoas? É preciso olhar quem são as vítimas, de fato, desta “guerra”.