Temer, o medalhista

Publicado na Gazeta do Sul, em 09-06-16



Continuamos pagando mico mundo afora. O “The New York Times” abriu o editorial de 06 de junho com o seguinte título: “Brazil’s Gold Medal for Corruption”, em alusão ao governo interino Temer. O editorial finaliza em tom de desafio: se Temer é realmente sério porque não solicita uma lei que acabe com a imunidade de legisladores e ministros para os casos de corrupção? Simples, porque o golpe não tem nada a ver com a corrupção. Apoiar o governo Temer é flertar com a hipocrisia. Por mais que se possa assumir uma postura crítica e de oposição radical aos governos do PT, e as críticas a estes governos não são difíceis de serem formuladas, optar pela via do golpe é um atestado de que realmente a democracia ainda é um mal-entendido entre nós. Usar do dispositivo do impedimento de forma leviana permite, no limite, derrubar todo e qualquer governo. Pode se constituir, como vem se constituindo na América Latina na última década, um dispositivo de instabilidade politica permanente.
O (des)governo Temer continua a nos dar bons exemplos de como a corrupção foi apenas a cortina de fumaça nesse processo de construção do impeachment/golpe. Apoiar um governo que se institui como quadrilha no poder é a prova mais cabal de como a corrupção não é um problema para os apoiadores do golpe, bem pelo contrário. Entende-se o silêncio de muitos frente ao fato de que continuam protegidos dentro do (des)governo Temer quinze ministros (do total de 24) citados na Lava Jato e em outras investigações. Para não perder a mão e escolher um ministro que não esteja envolvido em crime algum, Temer indicou para a pasta da Secretaria dos Portos Edinho Araújo (PMDB), que já foi condenado em segunda instância por improbidade administrativa.
Ainda é preciso desenhar? Sim, nestes tempos sombrios em que a indignação é sempre seletiva, tem até quem relativize o teor das gravações de Jucá e outros para tentar defender o indefensável Presidente interino Temer. O que não falta são mentes adestradas que em nome de falsos preceitos liberais defendem o golpe afirmando não ser golpe. Marcos Coimbra chama a atenção neste sentido que “aqueles que chamaram o golpe de 1964 de ‘revolução’ hoje dizem que o impeachment de Dilma ‘não é golpe’”. Mas as coisas vão ficando cada vez mais claras – e trágicas. Há uma semana está com o ministro Teori Zavascki (STF) o pedido de prisão feito pelo Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de Renan Calheiros (Presidente do Senado), do ex-presidente José Sarney, símbolo do poder oligárquico no Brasil, e do ex-homem forte do governo golpista Temer, Romero Jucá (Senador), todos do PMDB. O trio foi pego em gravações conspirando contra a operação Lava Jato. Dizem que até um dos principais articuladores do golpe, o mesmo que aparecia em placas nas manifestações com os dizeres “Somos Milhões de Cunha”, terá mandato de prisão expedido nas próximas horas. É ver para crer. Enquanto isso, continuemos a desenhar.